segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Homilia para a MISSA DOS QUILOMBOS - Dom José Maria Pires - Arcebispo (emérito) da Paraíba

Na noite de domingo, doa 27/08/2017, faleceu Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba. Homem de Deus. Um clérigo de luta. Sempre esteve atento aos sofrimentos do povo brasileiro, especialmente dos mais pobres, dos negros, dos índios, das mulheres em situação de prostituição, dos sem terras, dos sem teto. 
Sempre buscou aliar fé e vida. A transformação social era vista por ele como uma exigência do evangelho de Jesus Cristo. 
Tal como Jesus, foi um libertador. Procurou dar vista aos cegos, fazer com que os paralisados socialmente andassem, alimentou os famintos, evangelizou os pobres.
Reproduzo a seguir, sua homilia proferida na Missa dos Quilombos, que foi realizada em 1981 em Recife.

Pretos, meus irmãos: 
Estamos recolhendo, hoje e aqui, os frutos do sangue de Zumbi, símbolo da resistência de nossos antepassados. Eles foram trazidos à força da África para estas terras, arrancados de sua Pátria, separados de seu povo e de sua família, misturados com pretos de outras línguas e de outros costumes. Violentaram-lhes a consciência, impuseram-lhes uma religião que não escolheram. Até o nome lhes roubaram e os chamaram por nomes destituídos de significado para eles. 
Estamos presenciando hoje e aqui os sinais de uma nova aurora que vem despertar a Igreja de Jesus Cristo. No passado, ela não se mostrou suficientemente solidária com a causa dos escravos. Não condenou a escravidão do negro, não denunciou as torturas de escravos, não amaldiçoou o pelourinho, não abençoou os quilombos, não excomungou os exércitos que se organizaram para combatê-los e destruí-los. A Igreja não estava com os negros e hoje parece que começa a estar. Começa a nos querer bem. A respeitar nossa cultura e a não tratá-la mais como grosseira superstição. A Igreja começa a ficar de nosso lado, a nos ajudar a ressuscitar nossa memória histórica, a incentivar nossa organização.
Pretos, meus irmãos! Como nossos antepassados, viemos de vários lugares. Diferentes deles e menos puros do que eles, trazemos na pele colorações variadas. Na alma, crenças diferentes. Mas neles e em nós estão presentes e são indeléveis as marcas de negritude. Somos negros e não nos envergonhamos, não queremos mais nos envergonhar de sê-lo. 
Brancos, nossos amigos! Conosco vos reunis. Descendentes embora dos que humilharam e torturaram nossa raça, viestes hoje nos aplaudir. Não sendo negros, vos mostrais solidários com nossa causa e não quereis ver prolongadas em nós as consequências nefastas da escravidão que oprimiu nossos avós. 
Neste encontro histórico, faltam muitos irmãos negros que, levando ainda vida de escravos, não puderam compartilhar dessa celebração da liberdade. E faltam descendentes daqueles que reduziram nossa gente ao cativeiro. Eles não acreditam que os negros, enquanto tais, são os mais marginalizados no Brasil.  Veem nosso encontro como uma espécie de provocação ou uma demonstração de racismo que, segundo eles, não existe nem deve ser despertado entre nós, como um gesto de conteúdo mais ideológico e político do que evangélico e religioso. Somos gratos aos que, sem serem negros, se mostram partidários de nossa causa; lamentamos que alguns não vejam em nossa movimentação um sinal de que "a Boa-Nova está sendo anunciada aos pobres" (Lc 4.18), mas asseguramos que não iremos retroceder em nossa caminhada pelo fato de alguns nos interpretarem mal. 
Mais longa do que a servidão do Egito, mais dura do que o cativeiro da Babilônia foi a escravidão do negro no Brasil. 
Podemos entender — aceitar não — a escravidão como consequência de uma guerra ou em pagamento de uma dívida. Só mesmo um total desrespeito à pessoa humana associado à torpe ambição do lucro pode levar homens a transformar outros homens em propriedade sua a fim de explorá-los, igualando-os a animais de carga. No Egito como na Babilônia, os hebreus foram submetidos a dura servidão. Puderam, entretanto, conservar sua consciência de povo e a dignidade de pessoa. O africano, ao invés, foi desenraizado de seu meio e separado propositalmente de sua gente e de sua família. Foi reduzido à condição de um objeto que se pode vender, se pode dar, trocar ou destruir. Do escravo se exigia o máximo de produção com o mínimo de despesa. Não havia preocupação com sua saúde ou alimentação. A média de vida dos cativos era baixíssima. Castigos os mais humilhantes e severos eram infligidos por qualquer ato de desobediência ou gesto de rebeldia. Submissão absoluta, aniquilamento de si, renúncia total à própria vontade tornaram-se para os escravos condição de sobrevivência. Leis houve e não poucas, destinadas a coibir os excessos nos maus tratos aos cativos. Ficaram, porém, letra morta pois era o próprio sistema que legitimava a escravidão. A Igreja, por sua vez, a aceitou sem maior relutância e procurou justificá-la com a teoria do mal que vem para bem: se os negros perdiam a liberdade do corpo, em compensação, ganhavam a da alma e se incorporavam à civilização cristã abandonando o paganismo. Bela Teologia!
Hoje não falta quem condene a Teologia da Libertação — também chamada do Cativeiro — que justifica e incentiva, à luz da Palavra de Deus, os esforços dos oprimidos para se livrarem da marginalização a que foram reduzidos. Essa empreitada a que metem ombros tantos dos nossos melhores teólogos é certamente simpática, humana e conforme com a mente de Deus, características que não podem ser invocadas em favor da pretensão de legitimar com a Bíblia qualquer tipo de escravidão. Houvesse a Igreja da época marcado presença mais na senzala do que na casa-grande, mais nos quilombos do que nas cortes, outros teriam sido os rumos da História do Brasil desde os seus primórdios, outra teria sido a contribuição do negro ao nosso desenvolvimento porque, mesmo desenraizado de seu povo e de sua terra, mesmo reduzido ao cativeiro e sujeito a jornadas de até 18 horas de trabalho, conservou em si forças de aglutinação e de preservação de seus valores originais. Estas forças foram principalmente a religião e a combatividade. 
Obrigado a abandonar suas divindades e a trocar de nome no "Batismo", o negro soube fazer a síntese do antigo com o novo: aceitou a religião de seus opressores transformando-a por vezes em símbolo de crença de seus antepassados. As imagens de santos tornaram-se as materializações de seus orixás. Nossa Senhora da Conceição é Iemanjá, São Jorge é Ogum, Santa Bárbara, Iansã... Por mais alienadas e alienantes que pudessem parecer essas formas populares de devoção, foram elas que proporcionaram a muitos escravos africanos o meio de comunicação que lhes permitiu conservar valores que, de outro modo, teriam sido tragados na voragem do cruel cativeiro. Nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário para os Homens Pretos, no candomblé ou no xangô, a religião ofereceu aos escravos um espaço de liberdade onde, pelo menos enquanto durava o ato religioso, eles podiam sentir-se eles mesmos e recuperar a dimensão de pessoa humana.
A combatividade de nossos antepassados pareceu ter-se apagado no coração da maioria. O escravo mostrava-se conformado e submisso. Chegou a colaborar com seu opressor. A afeiçoar-se a ele. Essas atitudes, porém, podiam ser interpretadas como um expediente da natureza humana em busca da sobrevivência. No fundo, mesmo adormecido, permanecia vivo o sentimento de altivez que se rebelava contra a escravidão e buscava formas de expressar a revolta. Não foram poucos os casos em que escravos mataram feitores ou eliminaram senhores cruéis. A rebelião teve também sua manifestação coletiva, mais organizada e, por isso mesmo, mais eficaz. Foram os quilombos. A estas verdadeiras comunidades de escravos fugidos se uniam frequentemente índios que viviam situação parecida e até alguns brancos, vítimas, eles também, da exploração. 
Pela sua extensão territorial, pela sua organização social e política e pela sua longa duração, o Quilombo dos Palmares foi o mais importante de quantos existiram entre nós. Os quilombos jamais constituíram um perigo para as cidades, as povoações, os engenhos ou fazendas. Os negros fugidos procuravam terras até então inabitadas e desconhecidas, ai se instalavam, organizavam a produção de modo a se tornarem o mais possível autossuficientes e acolhiam outros negros que buscavam refúgio e liberdade no quilombo. Não se tem notícia de ataques feitos por quilombos contra as povoações. Não há vestígio de organização militar entre eles a não ser em Palmares quando tiveram necessidade de se defenderem. No entanto os quilombos foram severamente perseguidos. Temia-se que essa organização rudimentar de negros se tornasse cada vez mais poderosa e infligisse um golpe de morte na escravidão, o que viria prejudicar os interesses econômicos da classe dominante. E, como sempre, a polícia foi acionada contra humildes escravos. As forças militares receberam a incumbência de destruir os quilombos, apoderar-se das lavouras feitas pelos quilombos, prendê-los e reconduzi-los ao cativeiro ou exterminá-los. Muito sangue correu, muita esperança se afogou. 
Tudo em vão ou terá havido algum proveito? 
Chegou o tempo de tanto sangue ser semente, de tanta semente germinar.
Está sendo longa a espera, meus irmãos. Da morte de Zumbi até nós são decorridos já quase três séculos. Mas a terra conservou o sangue de nossos mártires. Este sangue fala, clama e seu clamor começa a ser ouvido. Primeiro por nós negros que estamos recuperando nossa  identidade e começando a nos orgulhar do que somos e do que foram nossos antepassados. A sociedade também escuta esse clamor. Muitos do seio dela nos apoiam e se colocam ao nosso lado para caminharmos juntos. A viagem é longa e penosa. Quase tudo está por fazer. O negro como negro continua marginalizado. Não existe em grau de embaixador, em posto de general, em função de Ministro de Estado. Na própria Igreja, são tão poucas as exceções que não abalam a tranquilidade do preconceito racial. 
Tomar consciência do problema de negros que gostariam de ser ou ao menos de parecer brancos e de brancos que negam que haja racismo no Brasil já é um passo importante nessa caminhada. Na Eucaristia que estamos celebrando, negros e brancos se encontram não como escravos e senhores, mas feitos irmãos no mesmo Cristo que a todos resgatou da escravidão do pecado. Aqui, descendentes dos que humilharam nossos pais se humilham e pedem perdão enquanto nós, acolhendo-os no abraço da paz, renunciamos a todo tipo de revanchismo e protestamos não admitir que ódio e violência se instalem em nossos corações. Se, no início, ouvimos as lamentações do Profeta Jeremias, ouvimos depois, no Evangelho, as palavras de conforto e as promessas da esperança. Que tudo isso que estamos celebrando impregne nossas vidas e invada as relações sociais para que de verdade se realize hoje o que, nos tempos do Apóstolo Paulo, já começava a ser a maneira de viver dos discípulos de Cristo: "Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3.20).
Em Recife, 22 de novembro de 1981.
(Fonte: http://www.koinonia.org.br/protestantes/uploads/novidades/Tempo-e-Presenca_173.pdf)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

“V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe – 10 anos - Os diáconos permanentes, discípulos missionários de Jesus Servidor”

2017, dez anos da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe.
No documento final desta Conferência, os bispos, afirmaram que “nos encontramos diante do desafio de revitalizar nosso modo de ser católico e nossas opções pessoais pelo Senhor, para que a fé cristã se enraíze mais profundamente no coração das pessoas e dos povos (...) como acontecimento fundante e encontro vivificante com Cristo” (13).
E acrescentaram que “nossa alegria baseia-se no amor do Pai, na participação no mistério pascal de Jesus Cristo que, pelo Espírito Santo, nos faz passar da morte para a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo pra o sentido profundo da existência, do desalento para a esperança que não engana” (16). E ainda que “o amor do Pai nos foi revelado em Cristo que nos convidou a entrar em seu reino. Ele nos ensinou a orar dizendo ‘Abba, Pai’” (16).
E ainda, que “conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher. Com os olhos iluminados pela luz de Jesus Cristo ressuscitado, podemos e queremos contemplar o mundo, a história, os nossos povos da América Latina e do Caribe, e cada um de seus habitantes” (18).
Fomos chamados a sermos “Discípulos Missionários”. Anunciadores do evangelho em todas as situações da vida humana. Bispos, padres, diáconos, religiosas(os) e leigos são chamados a darem testemunho de Jesus Cristo e serem proclamadores de seu evangelho.
Aos Diáconos Permanentes, os bispos lembram que fomos “ordenados para o serviço da Palavra, da caridade e da Liturgia, especialmente para os sacramentos do Batismo e do Matrimônio”. E ainda, “para acompanhar a formação de novas comunidade eclesiais, especialmente nas fronteiras geográficas e culturais, onde ordinariamente não chega a ação evangelizadora da Igreja” (205).
O Documento de Aparecida anima os diáconos permanentes a estarem inseridos no corpo diaconal, “em fiel comunhão com seu bispo e em estreita unidade com os presbíteros e os demais membros do povo de Deus”.
Lembram que a formação dos diáconos deve levar em conta a sua condição de casados. E que essa formação os habilita a “exercer seu ministério com fruto nos campos da evangelização, da vida das comunidades, da liturgia e da ação social, especialmente em favor dos mais necessitados, dando assim testemunho de Cristo servidor ao lado dos enfermos, dos que sofrem, dos migrantes e refugiados, dos excluídos e das vítimas da violência e encarcerados” (207).
Concluem os bispos dizendo que esperam “dos diáconos um testemunho evangélico e impulso missionário para que sejam apóstolos em suas famílias, em seus trabalhos, em suas comunidades e nas novas fronteiras da missão” (208).
Ao celebramos 10 anos da Conferência de Aparecida, lembremos que os diáconos permanentes são uma realidade em nossas comunidades paroquiais e nas dioceses. São homens que se colocam a serviço do Reino de Deus na dupla sacramentalidade do Matrimônio e da Ordem. São a concretização de Jesus Cristo servidor. Daquele que veio para servir, e não para ser servido.

Na Carta aos Tralianos, de Inácio, o teóforo, lemos: “Igualmente respeitem todos os diáconos como a Jesus Cristo, do mesmo modo que têm reverência pelo bispo, figura do Pai, e pelos presbíteros, senado de Deus e conselheiros dos apóstolos. Sem eles não existe a Igreja” (http://www.santamissa.com.br/santo/escritos_santos.asp?id=70).

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

“Um só é o Bom”!

O texto evangélico de hoje (Mt 19,16-22) nos apresenta uma pessoa que se aproxima de Jesus para lhe fazer uma pergunta. Mateus, o autor lido, não especifica quem é a pessoa. Sabemos ser do sexo masculino, pois ele informa que “o homem perguntou”. Mas, inicialmente, havia apenas falado de “alguém”, e no final diz “o jovem”.
“Alguém” pode ser qualquer pessoa. Eu, você ou um conhecido/conhecida. Uma pessoa que busque a Deus com sinceridade. Com coração aberto. Com vontade de servir verdadeiramente a Deus.
Mateus informa que esse “alguém” se aproximou de Jesus e lhe perguntou: “O que devo fazer de bom para possuir (grifo meu) a vida eterna”. A resposta de Jesus, “Um só é o (grifo meu) Bom”. Ao colocar o artigo (o) diante da palavra Bom, o evangelista substantiva um adjetivo. Ou seja, personifica aquilo que deveria ser uma qualidade. Mas, por outro lado, nos leva a ver que a bondade humana vem de Deus. E se somos feitos à sua imagem e semelhança, devemos exprimir essa bondade divina que acolhe, perdoa, é misericordiosa e salvadora.
Outro ponto para nos ajudar na oração desse texto, está diretamente relacionada com os verbos “possuir”, “entrar” e o adjetivo “perfeito”.
A pessoa quer “possuir a vida eterna”. A pessoa quer que a vida eterna faça parte de seu patrimônio. Quem compra tem a posse.
Mas Jesus ensina que não se pode comprar a vida eterna. Mas é preciso cumprir os mandamentos para “entrar” na vida. A entrada não é comprada. A entrada na vida eterna está diretamente voltada para as relações humanas. A vida eterna não é um bem que se compre com dinheiro, com posses. Para entrar na vida é preciso seguir os mandamentos.
“Quais os mandamentos”? Eram muitos os mandamentos judaicos. Havia muitas interpretações da lei mosaica que confundiam os fiéis. Mas Jesus remete o homem aos 10 mandamentos, a base, o fundamento da verdadeira vida espiritual e das relações sociais. Somente em Deus podemos refazer nossas sociedades desgastadas pela violência, pelo ódio, pela guerra, pela dor.
“Jesus respondeu: Não matarás; Não cometerás adultério; Não roubarás; Não levantarás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe; e Ama teu Próximo como a Ti mesmo”. Um manual básico de boa convivência. De relacionamentos sadios e honestos. Nada de extraordinário para uma pessoa que queria “entrar” na vida eterna.
O ser humano honesto com sua fé sempre precisa de algo a mais para viver, para entrar na vida. E o jovem disse, “tenho observado todas essas coisas. O que ainda me falta”? Como todo aquele que busca fazer a vontade de Deus em todas as coisas, ele quer ser perfeito. É isto que está embutido em sua pergunta.
Então, Jesus, aprofundando o tema da entrada na vida, diz: “se tu queres ser perfeito (grifo meu) vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro o céu”. Há, em outro lugar da Sagrada Escritura a passagem que diz que “onde está o seu tesouro, aí estará seu coração” (Mt 6,21). Jesus muda o foco. Não é “possuir a vida”, mas sim ser perfeito que o “alguém” está buscando. Já na lhe satisfaz viver a mesma vida de todos. Ele necessita de alguma coisa que lhe dê sentido na vida. E Jesus acrescentou: “Depois, vem e segue-me”. Ele muda o foco da “riqueza”, do “possuir”. Já não está na absolutização do dinheiro, mas nos relacionamentos e no seguimento de Jesus a nova riqueza trazida na mensagem do evangelho.
Esse fato causou tristeza ao jovem, ao homem, ao “alguém”, pois, segundo Mateus, ele era “muito rico”, pois é “mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino dos Deus” (Mc. 10,25). Normalmente, os ricos estão apegados às suas riquezas. Às suas posses. Aos seus bens. Por isso, Jesus havia dito que “vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”.
Um evangelho que nos leva a fazer escolhas. Um evangelho que nos leva a fazer opções. Como escolher entre os bens e a vida eterna? Como escolher entre as riquezas e entrar no Reino dos Céus? Encontramos a resposta em Mt 25,31-46. Hoje é um bom dia para você meditar sobre isso. “Onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração”.

Deus lhe abençoe.

domingo, 20 de agosto de 2017

“Tirar de si todas as afeições desordenadas”

Durante seu processo de conversão, Inácio de Loyola descobriu a presença de Deus em sua vida. Então, ele começou a procurar como fazer a vontade de Deus. Em seus Exercícios Espirituais, ele pergunta: “O que fiz, o que faço, o que farei por Cristo”? Uma pergunta que o inquietou.  Ele sabia que o homem havia sido criado para “louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor, e assim, salvar a sua alma”.
Entretanto, para que se concretizasse o fim para o qual fora criado, o homem deve “tirar de si todas as afeições desordenadas, e, afastando-as, procurar e encontrar a vontade de Deus, na disposição da própria vida para o bem da mesma pessoa”. Isso “se chama Exercícios Espirituais”.
Durante todos os exercícios, Inácio nos convoca a olharmos para nós, a nos colocarmos diante de Deus que nos ama e deseja nossa salvação. A espiritualidade inaciana é encarnada, pois parte do princípio de que o Filho se encarna para a nossa salvação. No exercício sobre a “Encarnação”, ele nos convida a contemplarmos “como as Três Pessoas divinas, lançando os olhos sobre toda a redondeza da terra cheia de homens, e vendo como todos se precipitavam no inferno, decretaram em sua eternidade que a segunda Pessoa da Trindade se fizesse homem para salvar o gênero humano...” (EE-102).
O processo de escolha, que chamamos de Discernimento, e Inácio de “Eleição”, deve levar em conta que “toda boa eleição, quanto de nós dependa, a nossa intenção deve ser simples, olhando somente o fim para que fui criado”. Assim, então, ele completa afirmando que “qualquer que seja o objeto da minha eleição, deve ser tal que me ajude a obter este fim...” (169).
Quanto ao “objeto da eleição” ele é variado. Pode-se fazer uma eleição para a escolha de um estado de vida: matrimônio, vida religiosa, sacerdotal, diaconal. Ou para uma reforma do estado de vida, quer dizer, depois de casado ou escolhido o sacerdócio, ou a vida consagrada, fazer uma reforma buscando uma nova maneira de viver sua vida. Ou, uma eleição para o início de um trabalho pastoral: educação, catequese, política, coordenação de um grupo etc. Para Inácio de Loyola toda ação humana deve estar voltada para o louvor a Deus, e para a salvação da alma do ser humano.
Buscar fazer a vontade de Deus, eis o que devemos viver. Sendo assim, nossa vida religiosa deverá sempre ser uma contemplação na ação. E uma ação contemplativa. Por isso, rezando com Inácio, entregamos a Deus nossa liberdade, nossa memória, nosso entendimento. Tudo é de Deus. Tudo nos foi dado por graça, e de graça devolvemos a Deus.

“O seu nome é santo”

Hoje celebramos a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Em 1950, o papa Pio XII proclamou do Dogma da Assunção de Nossa Senhora. Contemplamos Maria, mãe de Jesus, que é levada aos céus, antecipando aquilo que um dia vivermos. Antecipando a Igreja celeste que se encontra ao lado do Pai e do Filho.
Inicialmente, destaco algumas coisas que estão na primeira leitura. Primeiramente, São João está se dirigindo aos cristãos que estão sendo perseguidos pelo império romano. A linguagem usada por ele era comum entre os cristãos para que não fossem perseguidos e torturados. O Dragão é o império romano. As sete cabeças, as sete colinas que existem em Roma, sendo uma delas a do Vaticano. Os dez chifres eram os dez povos vassalos de Roma, ou seja, os povos subjugados. A mulher pronta a dar a luz é Maria, símbolo da Igreja que gera filhos para Deus. O Filho que é arrebatado é o próprio Jesus. E a mãe é protegida no deserto, longe do dragão. Mas também, aqui, o deserto é o próprio Reino dos Céus.
Maria simboliza a força da fé de todos os cristãos. Mas para chegar a ser assunta ao céu, Maria não deixou de passar e viver as dores do próprio Filho. O nascimento num estábulo, a fuga para o Egito, a perda do menino aos 13 anos, a rejeição pelos anciãos, o martírio, sofrimento e a morte. Maria pode ser assunta aos céus porque soube viver os momentos das dores em comunhão com o próprio Deus. Ele “olhou para a humildade de sua serva”. Deus contemplou as dores de um povo em Maria. Deus viu a opressão pela qual passava o povo. A Trindade decidiu pela encarnação do Filho para a redenção da humanidade. A Encarnação passou pela humanidade de Maria. O sangue derramado na cruz é um sangue humana. Um sangue de criatura, dado por Maria.
Maria apresenta-nos uma verdadeira oração a Deus. Uma oração de louvor. Uma oração que nos coloca junto de Deus através da nossa humanidade. Maria nos apresenta um Deus que está voltado para os humildes; Um Deus misericordioso para todos os que o respeitam; que mostra a sua força: dispersa os soberbos de coração, os orgulhosos; Um Deus que cumula de bens os famintos e dispensa os ricos de mãos vazias. Um verdadeiro Deus libertador fica ao lado dos pobres, dos sedentos de justiça, dos promotores da paz, dos humildes, dos esquecidos, dos encarcerados, dos nus, dos cegos. 
Maria, a mãe, está sempre atenta às necessidades de seus filhos. Por isso, “todas as gerações me chamarão bem aventuradas, porque o todo poderoso fez grandes coisas” em seu favor.
Aprendamos com Maria a buscar “primeiro o reino de Deus e a sua justiça”.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

“A alegria do amor – sobre o amor na família”

Em março de 2016, na solenidade de São José, no Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia – A alegria do amor – sobre o amor na família.
Em nove capítulos ele destaca a família à luz da Palavra; A realidade e os desafios das Famílias; O olhar fixo em Jesus: a vocação da família; O amor no matrimônio; O amor que se torna fecundo; Algumas perspectivas pastorais; o Reforçar a educação dos filhos; Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade; Espiritualidade conjugal e familiar.
O Papa Francisco, depois de ouvido os bispos do mundo inteiro, nos deixou pistas de como viver em família. Como nossas famílias podem ser “famílias santas” apesar dos desafios e da realidade na qual vivemos.
Tomo a liberdade de propor um roteiro para a leitura dessa Exortação. Sugiro que se inicie pelos capítulos que falam da espiritualidade. Ela tem a ver com aquilo que vai no nosso coração. De como encaramos as dificuldades e desafios. Sendo assim, inicie com o capítulo I. Em seguida, leia o capítulo III. Para finalizar essa primeira parte, aprofunde o capítulo IX.
Depois, leia o capítulo II. Marque os desafios que você encontra em sua família, em seguida, o que você na realidade que o/a cerca. Continue com o capítulo IV, e reflita ainda é possível viver essas virtudes no matrimônio? De que forma? Dê prosseguimento com o capítulo V. Como viver a fecundidade do amor? O amor à vida que nasce, o amor na criação dos filhos, no respeito e cuidado dos idosos. Continue com o capítulo VII, que trata da educação dos filhos. Como estamos agindo? Onde estão nossos filhos/as? Somos capazes de dizer Não, como forma de educação? Como estamos transmitindo a fé dentro de nossas famílias? E quanto a educação sexual dentro de um mundo que quer ser pluralista?
E por último, como nós, cristãos católicos, podemos dar uma resposta pastoral a toda essa realidade que se apresenta diante de nós no mundo de hoje? Como anunciar o “Evangelho da Família”? Como preparar nossos jovens para o matrimônio? Como acompanhar os casais nos primeiros anos da vida matrimonial? Como podemos iluminar momentos de crises, angústias e dificuldades?
Devemos aproveitar essa semana para intensificar a leitura, o estudo e a oração dessa Exortação Apostólica. Dediquemos um tempo para isso. Em casa. Em família. Não nos façamos cobranças, do tipo, “tá vendo, é o que eu sempre te digo, agora é o Papa falando”. Jesus nunca nos acusou. Nunca nos cobrou. Jesus apontava caminhos para a felicidade pessoal, conjugal e comunitária.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Festa litúrgica de São Lourenço

Festa litúrgica de São Lourenço, padroeiro dos diáconos. A arquidiocese do Rio de Janeiro conta com quase duas centenas de diáconos permanentes. São Lourenço viveu no século II, e foi martirizado sendo colocado sobre uma grelha, tipo de assar churrasco. Conta ao anedotário, que depois de certo tempo, ele pediu aos seus algozes que o virassem, pois o lado que estava sobre o fogo já estava no ponto.
Hoje, a vocação ao diaconato é valorizada e incentivada pela Igreja, principalmente após seu restabelecimento no Concílio Vaticano II. O Papa emérito Bento XVI, na encíclica Deus Carita Est, no número 21 afirma que da escolha dos 7 diáconos dos Atos dos Apóstolos, “esse grupo não deveria apenas realizar um serviço meramente técnico, de distribuição; deveriam ser homens cheios do Espírito Santo e de sabedoria. Quer dizer que o serviço social que tinham que cumprir era concreto sem dúvida alguma, mas ao mesmo tempo era também um serviço espiritual, que realizava um dever essencial da Igreja, o do amor bem ordenado ao próximo. Com a formação do organismo dos Sete, a diaconia – o serviço do amor ao próximo exercido comunitariamente e de modo ordenado – ficara instaurada na estrutura fundamental da própria Igreja”. (grifo meu. DCE. 21).
No documento 96, da CNBB, lemos que a “identidade do diácono encontra-se na ordem do ser”. E que o diácono “não deve ser definido a partir das funções ou dos poderes que lhes são confiados”. E que “através da ordenação sacramental”, ele recebe “uma marca indelével”.
O diaconato sempre foi uma realidade na Igreja Católica, desde os tempos primitivos. Inácio de Antioquia afirmava que “eles (os diáconos) fazem parte da hierarquia da Igreja e que devem ser honrados como Cristo”. Hermas, os comparou a “pedras quadradas e brancas na construção da Igreja”. A Didascalia Apostolorum afirmava que fossem “os ouvidos e a alma do bispo”. Clemente de Roma via nos profetas do Antigo Testamento, uma prefiguração de sua existência (dos diáconos). Hipólito de Roma afirma que os diáconos são ordenados “não para o sacerdócio, mas para o ministério do bispo”.
O documento de Aparecida, no número 205, destaca que os diáconos permanentes são ordenados para o “serviço da Palavra, da caridade e da liturgia”. Além de “acompanhar a formação de novas comunidades eclesiais, nas fronteiras geográficas e culturais, aonde, ordinariamente não chega a ação evangelizadora da Igreja”. E ainda, os bispos latino-americanos esperam dos “diáconos um testemunho evangélico e impulso missionário para que sejam apóstolos em suas famílias, em seus trabalhos, em suas comunidades e nas novas fronteiras de missão” (DAp. 208).
Os bispos do Brasil afirmam que o “diácono assume a opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos”. E ainda que “ele é apóstolo da caridade com os pobres, envolvidos com a conquista de seus direitos econômicos, políticos e sociais” (CNBB. 96 n, 58).

O Papa Francisco espera que os diáconos permanentes estejam próximo dos pobres. Afirmou que os diáconos não devem ter “medo de ser servos de Cristo, de encontrar e acariciar a carne do senhor nos pobres de hoje”. 

Sobre São Lourenço: "Se o grão de trigo não morrer..."

Na festa de São Lourenço, diácono e mártir, façamos uma pausa e reflitamos sobre o nosso testemunho nos dias de hoje. Estamos dispostos a deixarmo-nos morrer por nossa fé, como o grão de mostarda? Estamos dispostos a nos desapegarmos de nossa vida? De nossas posições sociais? De nossos conceitos e “pré-conceitos”? Nos colocamos a disposição de Jesus para estarmos onde ele está?
Para a santa Missa de hoje, é proposto o prefácio dos mártires. O Prefácio precede a Oração Eucarística que nos insere no mistério que estamos celebrando.
No Prefácio dos Mártires, ouvimos que “é nosso dever e salvação”, e que “é justo e necessário” dar graças a Deus “em todo tempo e lugar”. E que através do martírio, o santo “confessou” o nome de Deus “e derramou seu sangue como Cristo”, para que o poder de Deus se manifeste de forma admirável.
Continua o prefácio ressaltando a misericórdia divina que “sustenta a fragilidade humana e nos dá coragem para sermos as testemunhas de Jesus Cristo”, enquanto se espera a glória eterna.
O Papa Bento XVI afirmou que “o martírio é a morte voluntariamente aceita por causa da fé cristã ou por causa do exercício de outra virtude relacionada com a fé”.
No Catecismo da Igreja Católica (2473) encontramos: “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte”.
O Concilio do Vaticano II diz que: “Visto que Jesus, Filho de Deus, manifestou Sua caridade entregando Sua vida por nós, ninguém possui maior amor que aquele que entrega sua vida por Ele e seus irmãos (cf. 1Jo 3, 16; Jo 15, 13). Por isso, desde o início alguns cristãos foram chamados – e alguns sempre serão chamados – para dar o supremo testemunho de seu amor diante de todos os homens, mas de modo especial perante os perseguidores. O martírio, por conseguinte – pelo qual o discípulo se assemelha ao Mestre, que aceita livremente a morte pela salvação do mundo, e se conforma a Ele na efusão do sangue – é estimado pela Igreja com exímio dom e suprema prova de caridade. Se a poucos é dado, todos, porém, devem estar prontos a confessar Cristo perante os homens, segui-lo no caminho da cruz entre perseguições, que nunca faltam à Igreja” (Lumen Gentium, nº 42).
A propósito, deve-se notar o seguinte: O martírio é uma graça que tem sua iniciativa em Deus. Não compete ao cristão procurar o martírio provocando os adversários da fé. A Igreja sempre condenou esse comportamento, pois seria presunçoso (quem pode ter a certeza que irá suportar corajosamente os tormentos do martírio?); além do quê, seria provocar o pecado do próximo ou dos algozes.
Para que haja martírio propriamente dito, requer-se que o cristão morra livremente, ou seja, aceite conscientemente o risco de morrer por causa da sua fé. A aceitação da morte pode ser explícita, como no caso em que o perseguidor deixa a escolha entre renegar a fé (ou uma virtude relacionada com a fé) e a morte. A aceitação livre pode ser implícita quando a pessoa sabe que o seu compromisso cristão pode levá-la até a morte e, não obstante, é fiel a esse compromisso.
O martírio é algo tão antigo quanto a pregação da Palavra de Deus. Já ocorreu na história dos Profetas do Antigo Testamento. No século II a.C. os irmãos macabeus sofreram a morte cruenta por causa da sua fé (cf. 2 Mc 7, 1-42), assim como o escriba Eleazar (cf. 2MC 6, 18-31).
O martírio teve seu ponto alto em Jesus Cristo. Santo Estevão é o primeiro mártir do Cristianismo após Jesus Cristo (cf. At 7, 55-60). No fim do século I, o Apocalipse fala de “imensa multidão”, que ninguém pode numerar, daqueles que lavaram e alvejaram suas túnicas no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7, 9.14). Em síntese, São Paulo afirma que “todos aqueles que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus, serão perseguidos” (2Tm 3, 12)
Na conferência do CELAM, em Aparecida, lemos no número 275: “Nossas comunidades levam o selo dos apóstolos e, além disso, reconhecem o testemunho cristão de tantos homens e mulheres que espalharam em nossa geografia as sementes do Evangelho, vivendo valentemente sua fé, inclusive derramando seu sangue como mártires (grifo meu). Seu exemplo de vida e santidade constitui um presente precioso para o caminho cristão dos latino-americanos e, simultaneamente, um estímulo para imitar suas virtudes nas novas expressões culturais da história. Com a paixão de seu amor a Jesus Cristo, foram membros ativos e missionários em sua comunidade eclesial. Com valentia, perseveraram na promoção dos direitos das pessoas, foram perspicazes no discernimento crítico da realidade à luz do ensino social da Igreja e críveis pelo testemunho coerente de suas vidas. Nós, cristãos de hoje, acolhemos sua herança e nos sentimos chamados a continuar com renovado ardor apostólico e missionário o estilo evangélico de vida que nos transmitiram”.
E ainda, falando aos “discípulos missionários”, continuam os bispos: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio (grifo meu). Hoje queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores. Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais. A Igreja latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos” (396).
Na Festa de São Lourenço, deixemo-nos morrer como o grão de trigo, para que possamos dar frutos. Não nos apeguemos às mesquinhez da vida. Estejamos onde Jesus está, nos famintos, nos sedentos, nos encarcerados, nos doentes, nos desterrados.
Que São Lourenço nos abençoe neste dia.

(esse texto foi baseado na seguinte fonte: http://cleofas.com.br/serie-martires-do-seculo-xx-parte-1/. Em muitos casos, fizemos cópia fiel das palavras lá contidas).

Lourenço: Serviu o sagrado Sangue de Cristo

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (Sermo 304,1-4: PL 38,1395-1397)-(Séc.V)
A Igreja Romana apresenta-nos hoje o dia glorioso de São Lourenço quando ele calcou o furor do mundo, desprezou sua sedução e num e noutro modo venceu o diabo perseguidor. Nesta mesma Igreja – ouvistes muitas vezes – Lourenço exercia o ministério de diácono. Aí servia o sagrado sangue de Cristo; aí, pelo nome de Cristo, derramou seu sangue. O santo apóstolo João expôs claramente o mistério da ceia ao dizer: Como Cristo entregou sua vida por nós, também nós devemos entregar as nossas pelos irmãos (1Jo 3,16). São Lourenço, irmãos, entendeu isto; entendeu e fez; e da mesmíssima forma como recebeu daquela mesa, assim a preparou. Amou a Cristo em sua vida, imitou-o em sua morte. 
Também nós, irmãos, se de verdade amamos, imitemos. Não poderíamos produzir melhor fruto de amor do que o exemplo da imitação; Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo para seguirmos suas pegadas (1Pd 2,21). Nesta frase, parece que o apóstolo Pedro quer dizer que Cristo sofreu apenas por aqueles que seguem suas pegadas e que a morte de Cristo não aproveita senão àqueles que caminham em seu seguimento. Seguiram-no os santos mártires até à efusão do sangue, até à semelhança da paixão; seguiram-no os mártires, porém não só eles. Depois que estes passaram, a ponte não foi cortada; ou depois que beberam, a fonte não secou. 
Tem, irmãos, tem o jardim do Senhor não apenas rosas dos mártires; tem também lírios das virgens, heras dos casados, violetas das viúvas. Absolutamente ninguém, irmãos, seja quem for, desespere de sua vocação; por todos morreu Cristo. Com toda a verdade, dele se escreveu: Que quer salvos todos os homens, e que cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4). 
Compreendamos, portanto, como pode o cristão seguir Cristo além do derramamento de sangue, além do perigo de morte. O Apóstolo diz, referindo-se ao Cristo Senhor: Tendo a condição divina, não julgou ser igual a Deus. Que majestade! Mas aniquilou-se, tomando a condição de escravo, feito semelhante aos homens e reconhecido como homem (Fl 2,7-8). Que humildade! 
Cristo humilhou-se: aí tens, cristão, a que te apegar. Cristo se humilhou: por que te enches de orgulho? Em seguida, terminada a careira desta humilhação, lançada por terra a morte, Cristo subiu ao céu; sigamo-lo. Ouçamos o Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, descobri o sabor das realidades do alto, onde Cristo está assentado à destra de Deus (Cl 3,1).

Sobre o Diaconato Permanente - IV: A Vocação Diaconal

“A vocação é condição basilar e primeira de todo o processo de escolha, seleção e formação de candidatos” ao diaconato permanente. “O chamado de Deu deve falar mais alto e ser colocado de modo tão explícito que outras motivações e critérios seletivos lhe estejam subordinados” (Jo. 15,16).
“Devemos superar uma visão meramente utilitarista do diaconado: ‘antes de ser um serviço, é uma vocação, um dom de Deus à sua Igreja’”.
“Essa vocação se direciona e é acolhida por homens concretos, com sua história, limitações e qualidades. Por isso, não é plausível procurar o candidato ideal”.
A ausência de algum dos requisitos a seguir não deve ser motivo de prévia exclusão do candidato. E os “formadores deverão encontrar meios para a superação ou eliminação do problema”.
Para a vocação diaconal, a CNBB (doc 96) apresenta quatro critérios básicos para o discernimento vocacional: “critério pessoal, eclesial, familiar, comunitário”.
Quanto ao critério pessoal, pede-se ao candidato que tenha saúde física e psíquica. Além de equilíbrio afetivo. Escolaridade equivalente ao ensino médio, ou superior. Capacidade de liderança e espírito de equipe. Capacidade de autocrítica, de renovação, de formação permanente. Independência financeira.
Para o critério eclesial, espera-se que o candidato seja capaz de: maturidade na fé. Tenha espírito de oração e de contemplação. Interesse pelo estudo e aprofundamento da Palavra de Deus e da doutrina da Igreja. Capacidade de comunhão eclesial para ouvir, dialogar e acolher.
Sobre o critério familiar: convivência como esposo, pai, filho, irmão. Deverá ter o consentimento da esposa e dos filhos. Estabilidade matrimonial. Mínimo de cinco anos de casado. Vida familiar em coerência com os ensinamentos da Igreja.
Quanto ao critério comunitário, destaca-se: consciência de que será diácono da Igreja e não apenas de um grupo ou comunidade determinada. Engajamento pastoral de cinco anos ou outro estabelecido pela diocese. Capacidade de inculturação. Sensibilidade para os desafios que se apresentarem na comunidade. Visão pastoral de conjunto e abertura missionária. Capacidade de diálogo ecumênico com outras denominações cristãs. Capacidade de perceber e valorizar outros ministérios e lideranças da comunidade.
“A pastoral vocacional de cada diocese inclua (grifo meu) a vocação ao diaconado como uma das muitas formas de chamado de Deus, tornando-a conhecida e valorizada pelas comunidades e pelas famílias”.
“O surgimento de vocações específicas ao diaconado permanente pode acontecer de modos diversos, tais como: indicação da comunidade; apresentação por um presbítero, bispo ou outro diácono; iniciativa própria de quem se sente chamado a tal ministério”. Deus se vale de todos os meios para fazer cumprir sua vontade. Para se fazer ouvir, convidando ”a assumir um novo estado de vida e um serviço a Deus e ao próximo”.
Hoje, encerramos nossos textos sobre o diaconado. Espero ter contribuído para que meus leitores tenham aprendido um pouco mais sobre esse ministério ordenado de nossa Igreja que, apesar, de antigo, ainda é uma realidade nova em nossas comunidades eclesiais no Brasil. Existe hoje uma vasta literatura sobre o diaconato permanente. Procure ler. Caso você tenha um diácono permanente em sua paróquia, reze por ele. Reze por todos os diáconos permanentes da sua cidade, do seu estado, do Brasil e do mundo. É uma graça do Espírito Santo suscitada no coração dos padres conciliares, é hoje a forma que a Igreja tem de falar a linguagem de todos os meios onde a Igreja queira estar. Que os diáconos sejam homens que saiba anunciar Cristo-Servo em todos os ambientes onde estejam. Que saibam adaptar a linguagem da evangelização aos vários meios.
Tal como disse São Paulo aos Coríntios, nós diáconos possam repetir: “Sendo inteiramente livre, me fiz escravo de todos para ganhar o maior número possível. Com os judeus me fiz judeu para ganhar os judeus; com os submetidos à lei como se eu tivesse, embora não o esteja, para ganhar os submetidos à lei. Com os que não tem lei, como se eu não tivesse (embora não rejeite a lei de Deus), para ganhar os que não tem lei. Tornei-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos para salvar alguns de qualquer forma. E tudo faço pela boa notícia, para participar dela” (I Cor. 9,19-23).

Oremos: “Ó Deus, o vosso diácono Lourenço, inflamado de amor por vós, brilhou pela fidelidade no vosso serviço e pela glória do martírio; concedei-nos amar o que ele amor e praticar o que ensinou. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Sobre o Diaconato Permanente - III: As Atividades Pastorais as quais os Diáconos são chamados a exercer.


O diácono é chamado a exercer a tríplice missão eclesial: a diaconia da caridade, a diaconia da Palavra e a diaconia da Liturgia.
“Segundo a tradição apostólica, o diácono participa da missão plena do bispo, realizando sua função não apenas em nome do bispo e com sua autoridade, mas em nome de Cristo e com sua autoridade, mediante a consagração do Espírito Santo”.
O ministério do diácono situa-se em três âmbitos definidos: o serviço da caridade; a evangelização; e ação litúrgica.
“O diácono testemunha a presença viva da caridade de toda a Igreja e contribui para a edificação do Corpo de Cristo. Ele vai ao encontro das pessoas de qualquer religião ou raça, classe ou situação social, fazendo-se um servidor de todos como Jesus”.
No dia da ordenação, diz o bispo, “Amparados por Deus, procedam de tal modo em seu ministério que possais reconhecê-los como verdadeiros discípulos daquele que não veio para ser servido, mas para servir”.
Abre-se um amplo leque de atuação caritativa dos diáconos em nossos dias no Brasil. Diz o documento da CNBB, 96 (n. 58): “Na promoção social e na vivência das obras de misericórdia, o diácono assume a opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos. Ele é apóstolo da caridade com os pobres, envolvido com a conquista da sua dignidade e dos seus direitos econômicos, políticos e sociais. Está próximo da dor do mundo. Deixa-se tocar e sensibilizar pela miséria e provações da vida e reveste-se de especial compaixão pelos pobres, pelos desempregados, sem-terra, sofredores de rua. “migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os tóxico-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência dou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vitimas de exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados, os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os trabalhadores das minas” (DAp, n. 402). Em razão da graça sacramental recebida e da missão canônica, compete aos diáconos administrar os bens e as obras de caridade e promoção social da Igreja”.
Quanto à evangelização, destaca-se o serviço da Palavra. “A Igreja nasce da ação evangelizadora de Cristo. A evangelização é missão primordial da Igreja: Ela existe para evangelizar, para pregar e ensinar, ser canal do dom da graça, reconciliar os pecadores dom Deus e perpetuar o Sacrifício de Cristo na Santa Missa”.
Portanto, antes de ser servidor da Palavra, o diácono “será discípulo e ouvinte. Com frequência, fará a leitura meditada e orante da Sagrada Escritura, que é a escuta humilde e cheia de amor daquele que fala”.
“A missão evangelizadora do diácono não se restringe à homilia ou ao anúncio da Palavra no contexto litúrgico. Como anunciador da Palavra, ele dá, antes de tudo, o testemunho de um ouvinte assíduo e convicto do Evangelho. Transmite à comunidade a Palavra redentora, da qual ele próprio já experimentou o poder de transformação. Identifica-se com a Palavra anunciada; é, em sentido pleno, servidor da Palavra. Anuncia a Palavra de Deus com a autoridade que nasce, especialmente, da convivência familiaridade com o Evangelho”.
Na diaconia litúrgica, o diácono exerce sua diaconia na celebração dos sacramentos ou sacramentais, na presidência das celebrações da Palavra e nas orações.
Existe uma profunda ”relação entre Eucaristia e serviço social. O diácono traz para o altar as oferendas dos fiéis e leva a eles o pão eucarístico. Seu ministério demonstra que a liturgia e a vida social não são duas realidades justapostas, mas correlatas. No culto, o serviço encontra sua fonte; no serviço, o culto revela sua eficácia”.

Os diáconos são os ministros ordinários do Batismo e Matrimônio. Devem presidir a oração das Horas. Além de outros sacramentais que lhes são próprios, como algumas bênçãos.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sobre o Diaconato Permanente II: Fundamentos Teológicos

II. Fundamentos Teológicos
No documento 96, os bispos do Brasil, destacam que “Cristo, Profeta, Sacerdote e Pastor é enviado pelo Pai como ‘diácono’ de sua Vontade, para realizar, pela força do Espírito Santo, de maneira plena e definitiva, o projeto de salvação da humanidade”. Sendo assim, “a missão e o ministério de Cristo constituem a fonte dos ministérios e o modelo da ministerialidade da Igreja”. E ainda acrescenta que “Cristo escolhe e envia ministros para anunciar a Boa Nova da salvação (Mc. 16,15)”.
A diaconia da Igreja dá-se através da pregação da Palavra feita pelos apóstolos, conduzidos pelo Espírito Santo. Eles não cessaram de testemunhar o Reino de Deus e a presença de Cristo Ressuscitado.
O “ministério apostólico perdura até hoje na Igreja. É transmitido, de geração em geração, graças à sucessão apostólica, que assegura a continuidade entre os ministérios atuais e o ministério dos Apóstolos. O mesmo dom do Espírito Santo garante a identidade da missão (LG, n.20)”.
Sendo assim, “a diaconia, na Sagrada Escritura e na Igreja primitiva, constitui-se como uma característica do cristão, realidade existencial e modo de agir do discípulo de Jesus”.
Assim, “a missão da Igreja reveste-se de caráter universal. Através da ordenação, ela coloca seus ministros em estado de missão, confiando-lhes a mesma tarefa que recebeu de seu fundador: a unidade e a salvação do gênero humano”.
Portanto, “os vários ministérios, assumidos como carismas do Espírito e reconhecidos como serviços prestados à comunidade, situam-se no âmbito da diaconia eclesial. A Igreja sempre conheceu larga variedade de serviços, uns ligados à coordenação e orientação das comunidades (ministérios ordenados ou hierárquicos), outros relacionados às necessidades concretas das comunidades (ministérios não ordenados)”.
Dentro do contexto dos ministérios ordenados, “o diáconos define-se como sacramento de Cristo Servo e como expressão da Igreja servidora”. Sendo o ministério eclesiástico instituído por Cristo, torna-se de instituição divina. Sendo assim, “cabe à Igreja estabelecer os espaços dessa participação no ministério sacramental”.
Há um relacionamento entre os três graus do sacramento da ordem (episcopado, presbiterado e diaconado). Este se realiza através da “unidade do sacramento e da diversidade de carisma e funções”.
“A diaconia é comum a todos os cristãos, no entanto, existe uma forma específica de participação no ministério de Cristo, marcada sacramentalmente”. Pela imposição das mãos do bispo, o diácono “recebe, publicamente, de modo irrevogável e definitivo, o mandato e a missão do serviço”.
A identidade do diácono “encontra-se na ordem do ser”. Portanto, “não deve ser definido a partir das funções ou dos poderes que lhe são confiados. Ele recebe, através da ordenação sacramental, uma marca indelével. Em sua significação encontra-se a especificidade do diaconado” (Puebla n. 698).
Em Puebla, os bispos latino-americanos e caribenhos entenderam que “o diácono, colaborador do bispo e do presbítero, recebe uma graça sacramental de Cristo-Servo, tem grande eficácia para a realização de uma Igreja servidora e pobre”.
Então, o que significa esse ministério atribuído ao diaconado? “Com a ordenação diaconal, a Igreja evidencia que o serviço da Palavra e da caridade, primeiras exigências da evangelização, requerem testemunhas em integral comunhão com a Igreja, para poderem anunciar com autoridade a Palavra infalível da salvação definitiva e irrevogável”.
Tendo sua missão ligada ao Cristo-Servo, o diácono “evidencia e potencializa a dimensão do serviço”. Ele passa a ser “ícone de Cristo-Servidor” o que “constitui sua identidade profunda”. Portanto, “ao vê-lo deveríamos ser interpelado aos gestos concretos e à alegria do serviço”.
Afirmou São João Paulo II, em 1987, que “o serviço do diácono é o serviço da Igreja sacramentalizado. O vosso não é apenas dos muitos ministérios, mas deve ser, como o definiu Paulo VI, uma força motriz para a diaconia da Igreja (grifo meu). Com vossa ordenação estais configurados a Cristo na sua função de Servo. Vós deveis também ser sinal vivos da condição de servos da sua Igreja”.
Para que possam exercer sua função de servos, os diáconos “contam com a graça sacramental, pela qual, junto com os bispos e presbíteros, são postos à parte para uma missão específica e irrevogável”. Portanto, “o diaconado faz parte do sacramento da Ordem, e os diáconos exercem seu ministério a partir de uma graça sacramental”. Sendo assim, o “diaconado é sacramento da caridade em sentido amplo(...), pertence a estrutura fundamental da própria Igreja”.
Os diáconos passam a ser “expressão do ministério ordenado colocado o mais próximo possível da realidade laical e do protagonismo dos leigos”. Na Conferência de Aparecida, em 2007, os bispos disseram esperar “dos diáconos um testemunho evangélico e impulso missionário para que sejam apóstolos  em suas famílias, em seus trabalhos, em suas comunidades em nas novas fronteiras de Missão”.
O diácono encontra-se em três ambientes bem definidos: “o serviço da caridade, a evangelização, a ação litúrgica”.
No serviço da caridade, o diácono é chamado a assumir a “opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos”. E ainda, “é apóstolo da caridade com os pobres, envolvidos com a conquista de sua dignidade e de seus direitos econômicos, políticos e sociais”.
No serviço da Palavra, deverá ser, primeiramente, ouvinte. Deve fazer “a leitura meditada e orante da Sagrada Escritura, que é escuta humilde e cheia de amor daquele que fala”.
No serviço da liturgia, deve mostrar que não há dissociação entre vida social e Eucaristia. Há uma “profunda relação entre Eucaristia e serviço social. O diácono traz para o altar as oferendas dos fiéis e leva a eles o pão eucarístico. Leva aos doentes o Corpo do Senhor”.
O documento 96, da CNBB, que está me servindo de base, enumera locais de atuação dos diáconos.

“Na promoção social e na vivência das obras de misericórdia, o diácono assume a opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos. Ele é apóstolo da caridade com os pobres, envolvido com a conquista da sua dignidade e dos seus direitos econômicos, políticos e sociais. Está próximo da dor do mundo. Deixa-se tocar e sensibilizar pela miséria e provações da vida e reveste-se de especial compaixão pelos pobres, pelos desempregados, sem-terra, sofredores de rua. “migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os tóxico-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência dou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vitimas de exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados, os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os trabalhadores das minas” (DAp, n. 402). Em razão da graça sacramental recebida e da missão canônica, compete aos diáconos administrar os bens e as obras de caridade e promoção social da Igreja”.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sobre o Diaconato Permanente - I

No dia 10 de agosto, a Igreja celebra a festa litúrgica de São Lourenço, padroeiro dos Diáconos Permanentes. De hoje, até o dia 10 vou publicar quatro artigos que tratam do diaconato dentro da Igreja.
Primeiramente, falarei sobre os aspectos históricos, destacando o Diaconato Permanente na Igreja primitiva, no Concílio Vaticano II, na América Latina e no Brasil. Seguirei a estrutura apresentada no documento 96 da CNBB que trata das Diretrizes para o “Diaconado Permanente da Igreja no Brasil”.
Em seguida, apresentarei os fundamentos teológicos do diaconato permanente. Logo depois, sobre as atividades pastorais as quais os diáconos são chamados a exercer. E por último, destacarei a vocação diaconal.
Espero contribuir para o processo de formação dos Diáconos Permanentes, bem como uma compreensão do povo de Deus sobre a necessidade dos diáconos na vida pastoral e ministerial da Igreja.
I. Aspectos históricos.
O Diaconato foi instituído pelos apóstolos. Em Atos dos Apóstolos, capítulo 6, versículos de 1 a 6, vemos como e porque se deu a criação dos Diáconos. Acrescentamos, ainda, as cartas de Paulo a Filemôn (1,1) e na Primeira Carta a Timóteo (3,8-13).
Inicialmente, eram para servir à mesa, pois as viúvas não judias reclamavam que elas não eram assistidas. A mesa da palavra e a mesa do pão. Surgiram para evitar um conflito dentro da comunidade. Agiam como conciliadores. Foram escolhidos dentro os discípulos. Sete homens de fé e de boa reputação.
A Igreja pós-apostólica sempre viu nos Diáconos uma graça de Deus no serviço ministerial. Sendo assim, a Didaqué afirmava que estes deveriam ser escolhidos dentre homens “dóceis, desprendidos, verazes e firmes”.
Inácio de Antioquia afirmava que “eles fazem parte da hierarquia e que devem ser honrados como Cristo”. Hermas o comparava a “pequenas pedras quadradas e brancas” na construção da Igreja. A Disdacalia Apostolorum aconselha que cada cidade deveria ter o número suficiente de diáconos; e afirma que eles sejam “os ouvidos e a alma dos bispos”. Clemente de Roma via “nos profetas do Antigo Testamento uma prefiguração da existência” dos diáconos.
Hipólito de Roma afirmava que o diáconos é ordenado pela imposição das mãos do bispo e não do presbitério, pois ele é ordenado “não para o sacerdócio, mas para o ministério do bispo”. O Testamento do Senhor dizia que o “o primeiro ofício do diácono é acolher as ordens do bispo e executá-las”. Os pontificais fazem referência às suas funções litúrgicas.
Tendo um desejo ao retorno das Igrejas primitivas, o “Concílio Vaticano II restaurou o diaconato como grau próprio e permanente (grifo meu) da hierarquia e estabeleceu condições teológico-pastorais favoráveis para que esse ministério pudesse desenvolver-se plenamente”.
O Papa Paulo VI deu a primeira regulamentação sobre a formação dos Diáconos Permanentes através da Carta Apostólica Sacrum Diaconatus Ordinem (10/06/1967), e Ad Pascedum (15/08/1972). Em 1998 a Congregação para a Educação Católica e a Congregação para o Clero divulgaram as “Normas Fundamentais para a Formação dos Diáconos Permanentes” e o “Diretório do Ministério eda Vida dos Diáconos Permanentes”.
Na América Latina, o fato marcante foi a ordenação dos primeiros Diáconos Permanentes feitas pelo Papa Paulo VI no encerramento do Congresso Eucarístico de Bogotá, na Colômbia, em 22/08/1968. Dentre os ordenados estavam quatro brasileiros.
Vários encontros regionais e continentais marcaram a restauração do Diaconato Permanente. Destaco o I Congresso Latino-americano e Caribenho de Diaconato Permanente, de 13 a 16 de agosto de 1998, em Lima, Peru, cujo lema foi: “Um novo rosto para a Igreja”.
Desde 1979, na Conferência Episcopal Latino American a Caribenha, a Igreja do continente vem destacando a importância e a necessidade do ministério diaconal. Em Medellín, expressou-se a “necessidade de formar diáconos que sejam capazes de criar novas comunidades cristãs e ativar as existentes”. Em Puebla, reconhece-se “que o carisma do diácono tem grande eficácia para a realização de uma Igreja servidora e pobre”. Na conferência de Santo Domingo, destaca-se a “importância para o serviço de comunhão na América Latina e o amplo serviço em nosso continente”. Em 2007, na Conferência de Aparecida, com a presença do atual Papa Francisco, como redator do relatório final, apresentou os “diáconos permanentes como discípulos missionários de Jesus Servidor, ordenados para o serviço da Palavra, da caridade e da liturgia” (205).
No Brasil, as primeiras manifestações se deram com resenhas de artigos publicados na Europa sobre o assunto. Foram “elencados os motivos favoráveis à restauração e enfatizando o auxílio aos presbíteros nas áreas rurais”. Destacou-se a necessidade de uma formação especial para os candidatos. “Foi proposto que não houvesse um único modelo de diaconal, mas uma diversidade, de acordo com o carisma de cada diácono e necessidades pastorais”. Como ainda estamos presos nos modelos paroquiais, não vislumbramos outros modelos de diaconias.
Foram realizados vários encontros que contribuíram para o amadurecimento da opção pelo diaconado no Brasil. O primeiro, em São Paulo, em fevereiro de 1965; o segundo, em Campinas, agosto de 1966, onde se reuniram bispos, presbíteros e religiosos. Foram tratados temas como: “formação e seleção de candidatos; atuação dos diáconos nas comunidades, não como meros suplentes dos presbíteros, nem como substitutos dos ministros leigos; relação do diácono com o bispo e com os presbíteros”.
Paralelamente, as conclusões do encontro de Campinas, algumas experiências de formação diaconal começam a existir no Brasil. Em 1966, em Salvador-BA, Dom Eugênio de Araújo Sales, administrador Apostólico daquela Arquidiocese, inicia o primeiro curso para os candidatos do Regional Nordeste 3 (março/1966). Em seguida, o Regional Centro-Oeste, e o Regional Sul 3. Juntou-se a eles as dioceses de Volta Redonda-RJ, João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba, e Taubaté em São Paulo.
Em junho de 1970 foi realizado o Primeiro Encontro Nacional sobre o Diaconato. Em junho de 1981, no VI Encontro Interregional do Diaconado Permanente e II Encontro Nacional, em Campo Grande-MS, foi eleita a primeira Comissão Nacional de Diáconos do Brasil. Em 2003 foi criada a instituição da CND com seus estatutos canônico e civil, aprovados pela CNBB em 2004.

“Muitos encontros em âmbito regional e nacional foram realizados em todo os Brasil, consolidando o processo de implantação do diaconato permanente e abrindo novas perspectivas pastorais”.

domingo, 6 de agosto de 2017

A Sagrada Comunhão e o culto do mistério Eucarístico fora da Missa

Tendo em vista as novas determinações do Cardeal Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, sobre a quem cabe fazer a exposição do Santíssimo Sacramento utilizando o ostensório, cabe uma breve explanação sobre o que determina a Sagrada Congregação para o Culto Divino, registrada no livro “A Sagrada Comunhão e o culto do mistério Eucarístico fora da Missa”.
Na Introdução Geral, que trata da Relação entre o Culto Eucarístico fora da Missa e a celebração Eucarística, lemos: “a celebração da Eucaristia no sacrifício da Missa é a origem e o fim do culto que lhe é prestado fora da Missa”.
Na segunda parte da Introdução Geral, que trata das “Finalidades da Conservação da Eucaristia”, lemos que a finalidade primária e primordial de conservar a Eucaristia fora da Missa é a administração do Viático”. E continua, “são fins secundários a distribuição da comunhão e a adoração de nosso Senhor Jesus Cristo presente no Sacramento”.
No capítulo terceiro, que trata das Diversas formas de Culto à Santíssima Eucaristia, lemos que se “recomenda (...) a devoção particular como culto público à Santíssima Eucaristia, mesmo fora da Missa”. E ainda, pede que os fiéis se esforcem “a cultuarem o Cristo Senhor no Sacramento”. Além de que “os pastores os conduzam a isso com o exemplo e os exortem com as palavras”.
Ainda no capítulo terceiro, parte I, que trata da ”Exposição da Santíssima Eucaristia”, na Introdução, onde se fala da “Relação entre a Exposição e a Missa”, lemos que “a exposição da Santíssima Eucaristia, seja com o cibório ou ostensório, leva a reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida à íntima união com ele”. E acrescenta que “a exposição é excelente meio de favorecer o culto em espírito e verdade devido à Eucaristia”. Afirma, ainda, que “deve-se cuidar que nas exposições transpareça claramente a relação do culto do Santíssimo Sacramento com a Missa”.
Na segunda parte da Introdução do capítulo terceiro, onde se trata das “Normas para a Exposição”, quando se fala da “Exposição breve”, lemos que “as exposições breves do Santíssimo Sacramento sejam organizadas de tal modo que, antes da bênção com o Santíssimo Sacramento, se dedique tempo conveniente à leitura da Palavra de Deus, a cantos, preces e à oração silenciosa prolongada por algum tempo. Proíbe-se a exposição feita unicamente para dar a bênção.
Na parte terceira da Introdução do capítulo terceiro, onde se trata do Ministro da exposição da Santíssima Eucaristia, encontramos que “o ministro ordinário da exposição do Santíssimo Sacramento é o sacerdote ou o diácono que, no fim da adoração, antes de repor o Sacramento, abençoa, com ele, o povo”. E acrescenta que “na ausência do sacerdote e do diácono, (...) poderão expor publicamente a Santíssima Eucaristia para a adoração dos fiéis e depois repô-la o Acólito e outro ministro extraordinário da Sagrada Comunhão ou outra pessoa designada pelo Ordinário do lugar”. Em seguida, diz que “todos estes poderão fazer a exposição abrindo o tabernáculo, ou também, se for oportuno, colocando o cibório sobre o altar ou a hóstia no ostensório. No fim da adoração repõem o Sacramento no Tabernáculo. Não lhes é permitido dar a bênção com o Santíssimo Sacramento”.
Acrescenta que se “o ministro for sacerdote ou diácono, vestirá a alva ou a sobrepeliz sobre a veste talar com estola branca”. E ainda, que os outros ministros usarão a veste litúrgica eventualmente em uso na região, ou uma veste condizente com este ministério e aprovada pelo Ordinário”.
No título “O Rito da Exposição e Bênção Eucarística”, lemos que “feita a exposição, se for com ostensório, o ministro (ordenado) incensa o Sacramento”.
No que tange a “Adoração”, diz-se que “durante a exposição, as orações, cantos e leituras devem ser organizados de tal modo que os fiéis, recolhidos em fervorosa oração, se dediquem ao Cristo Senhor”. E acrescenta que “para favorecer a oração interior usar-se-ão leituras da Sagrada Escritura com homilia ou breves exortações que despertem maior estima pelo mistério eucarístico. (...) É conveniente que em momentos apropriados se guarde um silêncio sagrado”.
Este é apenas um pequeno resumo. Vale uma leitura mais aprofundada e um estudo mais demorado do Culto do Mistério Eucarístico fora da Missa.
Coloco-me à disposição para formação presencial sobre o Culto do Mistério Eucarístico.
“Nem tudo que é bonito é litúrgico, mas toda a liturgia é bonita”.