domingo, 30 de agosto de 2020

Não vos conformeis com o mundo!

Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2) | Diocese de Barretos

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16,21-27

21 Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir à Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. 22 Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: 'Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!' 23 Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: 'Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus mas sim as coisas dos homens!' 24 Então Jesus disse aos discípulos: 'Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 25 Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta.

Palavra da Salvação.

Reflexão

Hoje eu começo recordando a palavra de Paulo a Timóteo (II Tm 3,16-17): “toda escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra”.

Na segunda leitura, o mesmo Paulo convoca a comunidade cristã dos romanos a não se conformar “com o mundo”, mas que nós nos transformemos, renovando nossa “maneira de pensar e de julgar, para que possamos distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”.

A primeira leitura nos traz um profundo sentimento de tristeza, de rejeição que o profeta sofre. Depois de se sentir seduzido por Deus, e ter aceitado a missão, aqueles aos quais a palavra é destinada rejeitam a mensagem.

No evangelho, Jesus mostra qual o destino daqueles que assumem a missão de proclamar o Reino dos Céus, o Reino de Deus: sofrer, ser morto, ressuscitar.

O sofrimento não estava na perspectiva dos discípulos, “Deus não permita tal coisa”! Mas o discípulo missionário passa pelo sofrimento para chegar ao Reino. Ao rejeitar o sofrimento, o discípulo se afasta de Deus, do Deus que transforma as relações sociais. Diante dessa palavra, Jesus diz, “vai para longe, Satanás”! Seguir Jesus, e a proposta do Reino dos Céus, é confrontar-se com as ideologias de morte, de destruição. Defender a proposta do Reino dos Céus é estar em constante conflito com o mundo.

O caminho de quem segue Jesus, e busca o Reino dos Céus, é a renúncia de si mesmo, é tomar o caminho da cruz. É dar a vida (perder) por causa da proposta de Jesus.

Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro (Mt. 6,24), “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida”? Riqueza, status, prestígio, poder, nada disso tem valor no Reino dos Céus. Tudo isso nos afasta da proposta do evangelho. E conclui, dizendo que o filho do Homem “retribuirá a cada um de acordo com sua conduta”. E qual deve ser a nossa conduta? O próprio Mateus dá a “cola” dessa conduta no capítulo 25,31-46. Amém.

domingo, 23 de agosto de 2020

Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja

Papa Francisco - Fortaleza 

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16,13-20

13 Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos: 'Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?' 14 Eles responderam: 'Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas.' 15 Então Jesus lhes perguntou: 'E vós, quem dizeis que eu sou?' 16 Simão Pedro respondeu: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.' 17 Respondendo, Jesus lhe disse: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus.' 20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

Palavra da Salvação.

Reflexão.

A pergunta principal, "E vós, quem dizes que eu sou"? Essa pergunta inquietou e inquieta muitas pessoas, Em todos os tempos queremos saber quem é Jesus.
Hoje, poderíamos fazer a mesma, quem as pessoas dizem que é Jesus? Ouviríamos muitas respostas: um revolucionário, a revelação misericordiosa do amor do Pai; Jesus é tudo. E por aí vai. 
Essa pergunta, e sua resposta, são fundamentais para que possamos assumir o compromisso integral de sermos discípulos dele. Ela remete-nos a nossa vida, à nossa vontade, à nossa liberdade, o nosso entendimento. Responder a essa pergunta exige uma mudança de vida, de paradigmas, de atitudes. 
Os discípulos conviviam com Jesus. Ouviam suas palavras. Viam seus milagres. Participavam dos enfrentamentos que Ele teve com os fariseus, saduceus, doutores da lei. Viam como ele acolia os pecadores, os leprosos. Ouviram que a doença não era castigo de Deus. Que Deus é pai de todas e de todos. E que são aqueles que se afastaram do criador que precisam dele, e não os considerados "bons", santos, perfeitos. 
 "E vós, quem dizes que eu sou"? Essa é a pergunta que ecoa em nossos corações, em nossas mentes hoje. Quem é Jesus Cristo para mim? Ao responder que ele era o Filho do Deus vivo, Pedro percebeu que isso teria implicações em sua vida. Primeiro, se esse é o Filho de Deus estamos diante de Deus, e a Deus ninguém jamais viu. Mas estamos vendo seu Filho. E se o Pai e o Filho são um, eles estavam diante do Pai, pois quem vê o Filho, vê o Pai.
Segundo, ele é Filho do Deus Vivo. Se Deus é vivo significa que devemos gerar vida na vida nos outros. Não podemos defender políticas de morte, de segregação. Somos irmãos entre nós, sem hierarquizações. Sem distinções. Somos servos, e não patrões. "Entre vós não deve ser assim". Essa revelação de que Jesus é o Filho de Deus somente pode ser revelada pelo Pai através do Espírito Santo.
Assim, Santo Inácio de Loyola sempre dizia que nas orações deveríamos pedir mais conhecimento de Jesus para mais amá-lo e segui-lo. 
Em seguida, temos duas outras inserções no texto. Uma na qual Jesus diz que sobre Pedro a sua igreja será construída. E, podemos ficar confusos com isso. Mas, o que nos diz Jesus é que sobre Pedro a obra iniciada por ele vai se perpetuar na história da humanidade. Pedro passar a ter a missão de confirmar na fé seus irmãos e irmãs. Quando não mais tivermos Jesus, Pedro será aquele que dará a vida por nós, e assim sucessivamente. Aqui toco num ponto sensível para nós, o Papa. Existem pessoas que não gostam das palavras, dos gestos, das ações do Papa Francisco. Tenho dito para essas pessoas que tomem muito cuidado. O Papa recebe a unção do Espírito Santo. Então, toda fala contrária a ele é cometer um pecado grave. 
A terceira coisa a nos ser revelada, "tudo aquilo que ligares na terra será ligado no céu. E tudo aquilo que desligares na terra, será desligado no céu". Jesus dá a Pedro o poder e a autoridade de, em nos confirmando na fé, indicar o caminho do Reino dos Céus. Pedro vai apontar o caminho. Isso é o que vai nos ligar ou desligar dos céus.

Ao meditarmos essa passagem de hoje, possamos dizer junto com o salmista, "completai em mim a obra começada". Amém.

domingo, 16 de agosto de 2020

Dispersou os orgulhosos!

Valha-me, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré, intercessora dos ...
Auto da Compadecida - Ariano Suassuna

Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 1,39-56

39 Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com um grande grito,  exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!" 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu". 
46 Maria disse: "A minha alma engrandece o Senhor, 47 e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, 48 pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita. 49 O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! 50 Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam. 51 Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos. 52 Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. 53 De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos. 54 Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor, 55 como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre". 56 Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa. 

Palavra da Salvação.

Reflexão.

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Já escrevi e preguei várias vezes sobre esse texto. Mas, cada vez que eu faço a lectio divina dele, coisas novas vão aparecendo. Maria poderia ter dito a Isabel, "que nada; deixa disso! Você ficou emocionada com a minha chegada". Mas, não! 

Aquelas duas mulheres, mulheres do povo pobre de Israel, aguardavam, como todas e todos, a manifestação de Deus no meio da humanidade. As duas passam pelo milagre de estarem carregando esperanças para o povo. Um que prepararia o caminho; o outro, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Uma estéril, por graça de Deus, gerou o último profeta do Antigo Testamento. E a outra, ainda no início da vida, grávida do próprio Deus ("Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar"?). À Maria, o anjo revelou a gravidez de Isabel. E, à Isabel, o próprio filho revela a presença do Salvador. Dada essa revelação, vejamos.

Maria não se envergonha da saudação de Isabel. Ela, rapidamente,  faz uma oração de engajamento, uma oração de quem espera a encarnação daquele que é a salvação da humanidade.

Os pobres, os oprimidos, os excluídos esperam em Deus. A única coisa que nos resta é essa espera. Essa confiança. 

A primeira revelação que Maria nos faz é reconhecer a sua pequenez, sua insignificância enquanto serva. E que isso, não a fazia menor do que as outras pessoas que ocupavam um lugar de destaque. Ela passa a ser o centro das atenções (pelo menos para os pobres, excluídos, rejeitados). Apesar de sua pequenez, "o poderoso fez, por mim, maravilhas". Deus não escolheu, e não escolhe, os poderosos. Esses oprimem. E a ação de Deus é libertação. Os orgulhosos e os poderosos desprezam os excluídos, os rejeitados, aquelas e aqueles que são considerados sobras na nossa sociedade. Deus confunde (dispersa) os orgulhosos, e derruba dos tronos os poderosos. E coloca acima de toda forma de opressão os humildes. Deus é Deus porque alimenta (sacia) os famintos. Famintos de justiça, de paz, de misericórdia, de comida (pão).

Celebrar a Assunção de Maria, sua elevação aos céus é recordar todos aqueles e aquelas que são desprezados nesse mundo. Todos e todas que estão passando por humilhações, por racismos, por violências imposta pelo estado ou por qualquer outra pessoa. Esse nos precederão no Reino dos Céus (prostitutas e pecadores, pois esses estão abertos a ouvir a palavra de Deus (Mt 21,31)). 

Hoje, ao contemplarmos a Assunção de Maria, mãe de Jesus, lembremos que o Reino se faz e está no meio de nós. Que é preciso mudar as relações sociais. Que é necessário valorizar a vida, e não a necro-política que hoje está instaurada em nossa cidade, estado e país. Só se chega ao Reino dos Céus se soubermos compreender que a porta do Reino está diretamente relacionada com o serviço ao próximo/próxima. Maria foi Assunta ao céu, primeiro porque fora concebida sem pecado. Segundo, porque aceitará a missão de trazer em seu ventre o Filho de Deus. E terceiro, porque assumiu a missão confiada a ela por Deus, e disse, "Faça-se em mim segundo a vossa vontade". O nosso destino é o Reino dos Céus. Mas para chegarmos lá é preciso transformar esse mundo aqui. Amém.

domingo, 9 de agosto de 2020

Assim que subiram no barco, o vento se acalmou

Décimo Nono Domingo do Tempo Comum – Pedro desceu da barca e ...

Primeiro Livro dos Reis 19,9a.11-13a

Ao chegar ao Horeb, o monte de Deus, 9 ao profeta Elias, entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: 11 'Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar'. Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto. 12 Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa. 13a Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta.
Palavra do Senhor.


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 14,22-33

Depois da multiplicação dos pães, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o  avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Nossa reflexão de hoje até poderia somente se ater ao evangelho. Entretanto, fiz a opção de trazer a experiência de Elias em relação a Deus.

Dois homens. Elias e Pedro. Duas histórias, uma no Horebe (monte) e outra no Mar (Galileia). Duas histórias separadas pelo tempo entre si (e distante de nós), mas que falam aos seres humanos de hoje com muita clareza. Muita força. Muita propriedade. Sempre que a Palavra de Deus me toca assim, eu me recordo de Paulo escrevendo para Timóteo e dizendo que a escritura é útil "para ensinar, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra" (II Tm 3,16-17)

Sendo assim ,vejamos. Elias está fugindo da perseguição da rainha Jezebel. E vai se refugiar na montanha de Deus, o Horeb. Ali, Deus diz que vai passar diante dele, e ele terá que reconhecê-lo. Fogo, Terremoto, Vento Forte. Deus não estava nessas forças. Logo depois, uma brisa suave sopra, e Elias percebe a presença de Deus. Primeira lição, Deus se faz presente na brisa, na suavidade, no silêncio. Ele não se apresenta naquilo que incomoda o ser humano, na agressividade. "Deus é amor". Deus é amável. Ele restaura as nossas forças, como diz o Salmo. Deus se revela no silêncio.

Então, vejamos o evangelho. Olhemos para a figura de Pedro. Veja onde ele se encontra, barco-mar-barco. 
Primeiro, Pedro está na "segurança" do barco, enquanto esse navega pelas águas tranquilas. Até aquele momento, Pedro, homem experiente do mar, se sente seguro e tranquilo. 

Mas, por volta das 3 horas da madrugada, no meio da vigília, esse barco começa a ser atormentado pelo vento e pelas ondas altas e forte impulsionadas pelo vento (lembremos os três elementos da primeira leitura). Os discípulos começam a temer pela própria vida. Ao olharem ao longe, veem um vulto sobre as águas. Ainda não reconhecem Jesus. Pensam ser um fantasma, como se isso existisse. Começam  gritar. Jesus, percebendo o desespero deles diz, "Sou eu" (essa era a expressão utilizada para se falar de Deus). Pedro diz, "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água". É preciso checar a informação. E Jesus diz, "Vem"! Pedro sai da barca.

No mar, andando sobre ele, ainda venta forte, e as ondas são agitadas pelo vento impetuoso. Até aquele momento, não se havia notícias de que um pescador pudesse caminhar sobre as águas, e mais ainda, sobre águas revoltas pelo vento, com ondas fortes. 

Está Pedro sobre as águas. Mas, algo acontece. Pedro toma consciência do que está acontecendo. Fraqueja na fé e na coragem. E começa a afundar. Que cena linda. O pescador começa a virar peixe. Já perceberam isso? O pescador, ao começar a afundar, e ir para o fundo do mar, passa a ser peixe. E grita, "Senhor, salva-me"! E Jesus, que não tinha como ofício ser pescador, pesca Pedro. Resgata o discípulo das intemperes do mar. Das agitações das ondas. Do vento forte.

Os dois, então, voltam para a barca. Terceira parte da trilogia barca-mar-bar. Assim que voltaram à barca, toda a tormenta cessou. E todos reconheceram a filiação divina de Jesus. E Jesus ainda acrescentou que eles eram fracos na fé. 

Lições. Deus não se faz presente nas agitações do dia-a-dia. Deus não é força, apesar de ser poder. Deus se revela aos seres humanos na serenidade, e essa pode estar na montanha. Deus se revela nas agitações da vida, ele nos resgata de tudo que possa nos tirar a paz e a coragem. Deus nos restabelece a fé, mas é preciso ter coragem. É preciso ouvir a sua palavra e a por em prática. É preciso assumir na nossa vida a profecia e a condução do povo.

Deus tudo pode. Quantas vezes, na barca de nossa vida pessoal, de nossa vida eclesial, de nossa vida comunitária, de nossa vida familiar, nos vemos agitado por tantos ventos? Até nos parece ventos fortes que nos desestabilizam. Mas, o evangelho de hoje nos mostra que diante de nós está Jesus, está sua palavra, está sua vida. Se tivermos a coragem de caminhar sobre as nossas agitações, com Jesus, tudo será superado. Às vezes, é necessário passar por essas agitações para renovarmos nossa confiança no Senhor. 

Sempre tenha fé. Tenha Coragem! Confie, por mais que ventos impetuosos e ondas fortes agitem sua vida. Amém.

domingo, 2 de agosto de 2020

Dai-lhes vós mesmos de comer!

Dai-lhes vós de comer – Igreja Anglicana


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 14,13-21

13 Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: 'Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!' 16 Jesus porém lhes disse: 'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!' 17 Os discípulos responderam: 'Só temos aqui cinco pães e dois peixes.' 18 Jesus disse: 'Trazei-os aqui.' 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção.
Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuiram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos,
e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios.
21E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.


Palavra da Salvação.

Reflexão.

Temos diante de nós três textos que nos falam a coração de uma forma peculiar. 

Inicialmente, Isaias mostra uma sociedade igualitária, onde não se mede a vida pelo dinheiro que se tem. Ou, digamos assim, pelo "poder de compra". No Reino, tudo está a nossa disposição. Cada um recebe segundo a sua necessidade. "O pão nosso de cada deia nos dai hoje". O profeta nos lembra que Deus nos alimenta para que possamo ouvir sua palavra, e com isso, termos vida.

Na segunda litura, Paulo nos lembra que nada poderá nos separar do amor de Cristo. Tudo aquilo que humanamente falando, poderia produzir falta de paz, diante de Cristo tudo é passado.

E no evangelho, a frase central é "dai-lhes vos mesmos de comer"! Não é um chamado à caridade. É uma afirmação. É uma ordem. Os discípulos dizem que não será possível alimentar uma multidão com cinco pães, e dois peixes. Mas, eles esqueceram que, além disso, Jesus estava ali. 

Existem muitos elementos nessa texto que nos servem de matéria para nossa reflexão. Vejamos. Se somarmos 5 com 2, teremos 7. Sete sacramentos. Sete virtudes opostas aos sete pecados capitais. Sete obras de misericórdia espiritual e sete obras de misericórdia corporal. Se somarmos as virtudes teologais com as virtudes cardeais teremos sete. Interessante como o número sete nos acompanha em nossa vida espiritual. Sete foram os número dos primeiros diáconos. Sétimo é o dia do descanso de Deus após a criação. 

Então, diante dos cinco pães e dos dois peixes, temos Jesus, a perfeição. Ele toma esse alimento, dá graças, e os parte, distribuindo para os discípulos que lhes entregam à  multidão ali presente. 

O texto diz que todos comeram e ficaram satisfeitos. Vejam, cada um recebe uma parte do pão. O pão é repartido entre todos, homens, mulheres e crianças. E ainda, se tem sobras. Que são recolhidas em 12 cestos. Cada discípulo ficou responsável por alimentar, mais adiante, cada uma daquelas pessoas. 

O que podemos tirar de proveito hoje? Jesus não é posse de nenhum grupo religioso. Jesus se reparte, mas se dá por inteiro. E os discípulos somos chamados a levar a palavra de Jesus a todas e a todos. Alimentar cada uma daquelas pessoas que foram ao seu encontro buscando conforto, e orientação.

Não devemos despedir as pessoas sem que sejam alimentadas. Sem que sejam ouvidas e atendidas em suas necessidades. 

A oração eucarística rezada hoje, no Rio de Janeiro, diz, "Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que, a exemplo de Cristo e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo"T: Ajudai-nos a criar um mundo novo!

Criai um mundo novo, onde não haja mais fome.

domingo, 26 de julho de 2020

Compreendestes tudo isso?



É PRECISO CAMINHAR


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 13,44-52

Disse Jesus à multidão: 44 'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.

45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.

47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E ai, haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?' Eles responderam: 'Sim.' 52 Então Jesus acrescentou: 'Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.'

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Nosso texto de hoje demorou a ser escrito. Estamos o capítulo 13 de Mateus, o chamado Sermão do Reino, onde Jesus nos mostra, por parábolas, como é o Reino dos Céus.

"O Reino dos Céus é como...". No domingo passado, 16º do tempo comum, Jesus comparava o Reino dos Céus a um campo onde era semeado trigo e o demônio infiltrou o joio. Além de usar a linguagem do fermento, e do grão de mostarda.

Hoje, vemos as mesmas comparações de um forma diferente. Somente a da rede lançada ao mar se assemelha ao trigo e joio.

Ouviremos muitos falarem do valor do reino dos Céus. Mas esse é um valor diferente, pois é preciso desfazer-se dos próprios bens para adquirir o Reino dos Céus. Apesar dele não pode ser comprado com nossas riquezas humanas. O Reino dos Céus é justiça. E para Deus, justiça é doação, é partilha, é superação do egoísmo, dos racismos, das homofobias. Justiça é não seguir governos que produzem mortes e perseguições. É respeitar a natureza, nossa Casa Comum.
Jesus aponta para uma nova relação social, onde não haja ricos, nem pobres. Onde não haja pessoas com fome e sede, sem vestimenta, doentes sem tratamento, encarceradas injustamente. Onde não haja refugiados. Ou perseguidos.

Em seguida, ele compara o Reino dos Céus a o simples ato de pescar. De lançar a rede. De ir ao mar. Aqui, o mar é o mundo. E no mundo existem muitos tipos de pessoas, boas e injustas. E quando o pescador chega à praia, ele separa os peixes bons, e os coloca nos cestos; e os peixes que não prestam são jogados fora.
Assim ele fala da humanidade. Assim somos nós. Aqueles que são bons, e aqui aparece um detalhe, bom não são só os cristãos, só os católicos; bons são todas aqueles assumem em sua vida a solidariedade com os pobres, com os excluídos, com as pessoas mortas nas favelas, pelos perseguidos por causa da busca justiça. Os bons serão recolhidos nos cestos. Serão colocados à parte. Pois deram o fruto necessário.
Os que são maus, são injustos. Não defendem a vida. Tramam o tempo todo pela morte dos pobres, dos negros e negras, dos indígenas, destroem o meio ambiente, maltratam crianças, mulheres, jovens, adolescentes. Pela corrupção, causam destruição do ensino público, são contra as pesquisas, tramam o fim dos hospitais públicos, roubam dinheiro público, falam mentiras, enganam. Esse serão jogados na fornalha, no fogo eterno. Não pertencem ao reino, apesar de estarem juntos na mesma rede. 

Temos hoje um alerta muito importante para aqueles que estão nos templos religiosos, que buscam a divindade, não basta estar na rede, é preciso ser peixe bom. É preciso ter atitudes de solidariedade, de amor ao próximo, de misericórdia, não importa a quem. Missas e cultos são importantes. Práticas devocionais são importantes. Grupos de Oração são importantes. Sacramentos são importantíssimos. Tudo isso só tem sentido se me leva ao encontro do outro. Se me faz uma pessoa melhor, sem julgamentos, sem doutrinas que condenam. 

Se Maria, a mãe de Jesus foi o que foi, e aceitou a ser a mãe do salvador, ela aprendeu com seus pais. Hoje lembramos os avós de Jesus, lembremos de todas e todos aqueles que nos precederam na fé, e que souberam nos ensinar a justiça que liberta, que leva ao encontro do outro, que nos aponta para Jesus. Amém.

domingo, 19 de julho de 2020

O Reino dos Céus é como...

Minério e Prosa: |”Um grão de mostarda” por Nádio Batista | Blog ...Fermento na Bíblia: Por que era visto de forma tão negativa?Deixai que o joio e o trigo cresçam juntos” - Instituto Humanitas ...


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 13,24-43

24 Jesus contou outra parábola à multidão: 'O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26 Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27 Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: `Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?' 28 O dono respondeu: `Foi algum inimigo que fez isso'. Os empregados lhe perguntaram: `Queres que vamos arrancar o joio?' 29 O dono respondeu: Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30 Deixai crescer um e outro até a colheita!E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!''

31 Jesus contou-lhes outra  parábola: 'O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos.'

33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: 'O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.'

34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo'.

36 Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: 'Explica-nos a parábola do joio!' 37 Jesus respondeu: Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.'

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Jesus nos conta três parábolas sobre o Reino. Duas delas, nos parecem ser mais fáceis de compreender. A primeira, da semente de mostarda. As pessoas vivem perguntado sobre esse tipo de semente. Sugiro que vá à internet e faça essa pesquisa. Basta uma pequena semente dessa hortaliça para que haja um grande arbusto. 
Em seguida, ele fala do fermento. É a pequena parte, a pequena porção para que tanto o pão, quanto o bolo possam crescer, e alimentar muitas pessoas. Então, o Reino não precisa de muitas palavras, de muito alvoroço. Basta uma pessoa, por menor que seja, vivendo as bem aventuranças, para fazer o Reino germinar no meio da humanidade.

Voltamos para a parábola principal. Se observarmos bem, veremos que depois da parábola do Semeador, a parábola do Joio e do Trigo é a segunda parábola que Jesus explica para seus discípulos. Não haveria necessidade de explicar essa parábola, pois o próprio Jesus já o fez. 

Entretanto, no fim da parábola Jesus diz, "o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal". Nesse ponto é importante falarmos sobre o "praticar o mal" e o fazer os "outros pecar".

Em nosso catecismo, aprendemos que "o pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens". E ainda, "fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana" (grifos meus). Santo Agostinho definiu o pecado como "uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna".

Aqui observamos que o pecado não é apenas um ato pessoal. Ao pecar, nosso pecado tem uma dimensão social, pois implica em uma queda do outro. Fazemos menção ao Pai Nosso, "perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido". Não basta pedir o perdão individualmente. Esse perdão tem implicações sociais. Por isso, sempre é bom pensar, esse meu pecado feriu em que o meu irmão? Toda a nossa listinha de pecados terá como consequência o ferir alguém. O afastar alguém do Reino dos Céus. O não ser fiel à missão confiada a nós por Jesus, não importa o nosso grau de inserção na comunidade, pois "a quem muito foi dado, muito será cobrado". 

E depois, Jesus fala de "praticar o mal". Em sã consciência as pessoas religiosas fogem da prática do mal. Mas, sempre vemos atitudes de maldade nas falas, nos gestos, nas ações. Até São Paulo passou por isso, "Ora, se faço aquilo que não quero, não sou eu que o faço, mas é o pecado que mora em mim" (Rm 7,20). E quando é que praticamos o mal? Todas as vezes que temos atitudes ou falas racistas. Todas as vezes que não sentimos a dor das mulheres que são agredidas de todas as formas possíveis; todas as vezes que acusamos as irmãs e irmãos que fizeram uma opção sexual diferente da nossa; todas as vezes que apoiamos governos, ou candidatos que tem como plataforma política o extermínio de populações pobres, negras, faveladas. Todas as vezes em que não nos indignamos com ações violentas praticadas pelo estado através dos seus agentes de segurança. Todas as vezes em que vemos o Meio Ambiente ser destruído e não nos pronunciamos em contrário. Todas as vezes em que achamos que a fé é algo intimista e individual, e que não tem consequências sociais.

Jesus hoje nos alerta para que vejamos nossas práticas, nossas ações, nossas palavras. Tomemos cuidado para não sermos o joio no meio do trigo.

Rezemos: "Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que, repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

domingo, 12 de julho de 2020

Quem tem ouvidos, ouça!

Quem Tem Ouvidos Ouça” | CFNEWS

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 13,1-9


1 Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. 2 Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. 3 E disse-lhes muitas coisas em parábolas: 'O semeador saiu para semear. 4 Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5 Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6 Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7 Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8 Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. 9 Quem tem ouvidos, ouça!'

Palavra da Salvação.

Reflexão

Estamos diante de uma das leituras mais conhecidas, o Semeador.
Nesse caso, o semeador sai a lançar a semente, independentemente da terra.
Existem vários terrenos a serem semeados. E o semeador insiste em jogar a semente. Cada terra recebe a semente de um jeito.
Cada um de nós recebemos a palavra de Deus (semente) de acordo com o estado de nosso coração e da nossa vida. Se estamos bem, a palavra nos ajuda a vermos o mundo por uma ótica de alegria, de euforia, de otimismo, de consolação. Se estamos mal, a palavra de Deus nos impele a uma reflexão sobre a fé, sobre a esperança e sobre a caridade.
A passagem de hoje nos recorda duas situações distintas, mas complementares. A primeira está na segunda carta de São Paulo a Timóteo, capítulo 3,16-17, e diz "toda escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim, a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra". Essa é a terra que germinou cem por cento.
A segunda, está nos Exercício Espirituais de Santo Inácio de Loyola, e trata da Consolação e Desolação espiritual. Ao tratar da desolação Inácio fala de possíveis causas deste estado da alma. Dentre elas, destaco, não sermos constantes em nossas práticas espirituais, ou seja, oração diária e lectio divina. Assim, passamos a ser aquele terreno que recebe a semente (palavra) mas não dá frutos.
Já na consolação espiritual temos o reforço da fé, da esperança, da confiança em Deus. Terreno fértil.
Olhamos para o texto de hoje com aquele sentimento de que terreno somos nós. Frequentamos templos, rezamos, fazemos lectio divina, mas, às vezes, nos sentimos tristes, sem esperança, cansados, sem rumo. Mas, se deixamo-nos ser cuidados pela palavra de Deus, daremos o fruto necessário. E quais são esses frutos? Na carta aos Gálatas, capítulo 5,22-23, Paulo enumera-os: "amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si". Acrescento a esses, novos frutos para os nossos dias. Ser contra toda forma de racismo, de discriminação; ser contra toda forma de violência contra as mulheres, crianças, idosos, indígenas; ser contra a destruição do meio ambiente. Ser contra toda e qualquer forma de destruição da vida.
É por isso, que quem tiver "ouvidos, ouça". Amém.

domingo, 5 de julho de 2020

Meu jugo é suave e o meu fardo é leve

O Jugo Suave e o Fardo Leve

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 11,25-30



Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: 25 'Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Antes de iniciarmos nossa reflexão de hoje, vou apresentar uma característica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, a chamada "Repetição". Isso porque, nosso texto de hoje já apareceu em nossa liturgia.

"A repetição é um elemento capital da pedagogia dos Exercícios, pois permite, pouco a pouco, discernir os espíritos: com liberdade e desembaraço, voltamos ao momentos em que Deus, pelo gosto espiritual, começou a indicar-nos sua vontade, mas também aos momentos de secura, tentação,  repulsa que talvez nos tenha impedido de encontrá-lo". (Exercício Espirituais de Santos Inácio de Loyola, Edições Loyola. 1985. Nota de rodapé 49, página 52).

Já o padre Futrell, sj, afirma que "as repetições são de grande importância para o Exercício Espiritual e não resultam redundantes, como se poderia desconfiar". E acrescenta que é um momento, onde, "em clima de oração", se deve repassar "as consolações, desolações e luzes espirituais" dos exercícios anteriores (cf. Como dar um retiro inaciano - manual para diretores. Edições Loyola. 1987. pág. 60).

"A repetição consiste consiste em uma retomada, em um aprofundamento, que permite que o fruto espiritual amadureça" (cf. Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, Edições Loyola. 1994. pág. 49).

 Sendo assim, a repetição tem um caráter espiritual pedagógico. Não é um tapa buraco.

Tendo esse preâmbulo, voltemos ao nosso texto. Como eu disse inicialmente, esse texto já apareceu em nossa liturgia. Agora, vamos vê-lo sob outro aspecto.

Façamos uma divisão didática para melhor compreensão. Primeiro, nos versículos 25 e 26 temos uma oração pessoas de Jesus. Em nossos tempos, chamamos essa oração de Oração de Louvor. Jesus exalta Deus-Pai por ter dado aos pequeninos o entendimento das coisas do Reino dos Céus e escondido isso dos sábios e entendidos.

Leonardo Boff tem uma frase onde diz, "todo ponto de vista, é a vista de um ponto". E ainda mais, "cada um lê com os olhos que tem. E interpreta de onde os pés pisam". Jesus está no meio dos pobres. Convive com pobres. Mora com os pobres. Olha o mundo do jeito que os pobres olham. Só para termos um exemplo prático, Pe. Júlio Lancelotti olha o mundo com o olhar dos que moram nas ruas. E ilumina essa leitura com a palavra de Deus. Jesus não está no meio dos mestres da lei. Não mora em Jerusalém. Não está no templo como rabino.

Em seguida, Jesus fala Dele e do Pai. Pai e Filho formam uma unidade. Um conhece o outro. E o Pai só pode ser revelado pelo Filho. Pois o Filho convive com o Pai.

Logo depois, vendo a realidade do povo, as leis impostas sobre eles, sejam elas civis ou religiosas, percebe o peso de se viver isso. Ele, então, diz que seu fardo é leve, e seu jugo é suave. Lembremos que o jugo era o instrumento colocado nas costas do jumento para fazer o transporte dos jarros. Aquilo pesava. Jesus alerta que os entendidos e sábios costumam criar leis pesadas que o povo não consegue suportar. Por isso, são como ovelhas sem pastor.

Ele se apresenta como manso e humilde de coração. Lembremos as Bem Aventuranças. "Bem aventurados os mansos, porque receberão a terra em herança". E mais, "Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus". Aqui os "puros de coração" são os humildes.

Aproveitemos o dia hoje. Vejamos quais são as cargas pesadas que estamos levando. Como podemos nos desfazer de nossos fardos, de nossos jugos. O que devo fazer para ser manso e humilde de coração? Amém.

sábado, 27 de junho de 2020

E vós, quem dizeis que eu sou?

CALENDÁRIO ANGLICANO: A Confissão de São Pedro – Rev. Padre Jorge ...

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16,13-19




Naquele tempo: 13 Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" 14 Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas". 15 Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?" 16 Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". 17 Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus".

Palavra da Salvação.

Reflexão

Hoje celebramos a Solenidade de São Pedro e São Paulo. A palavra Solenidade traz uma importância para o que celebramos hoje. 

Apesar de fazermos o comentário sobre o evangelho, as leituras adicionais servem para conhecermos um pouco mais sobre esses dois.Mas, elas me servirão como apoio a minha reflexão.

Na primeira leitura, Pedro está preso. E é libertado pelo anjo.  Na segunda leitura, Paulo diz a Timóteo que ele já cumpriu sua missão e que está pronto para partir dessa vida. 

No evangelho temos uma cena marcante. É a chamada "confissão de Pedro". Jesus estava numa, digamos assim, "intimidade" com a sua pequena comunidade. Então, os levou para um lugar à parte. E, diante do que estavam vivendo, ouvindo, vendo, lhes pergunta "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem"? Eles respondem. Mostram a Jesus o que os outros dizem Dele. Entretanto, isso pouco importa para Jesus. Na verdade, Ele quer saber se os discípulos entenderam quem Ele é. E aí, a pergunta, "E vós, quem dizeis que eu sou"? Antes de comentar a resposta de Pedro, sugiro que você faça a mesma pergunta para si, Quem é Jesus para mim? Não responda de imediato. Reflita. Reze. Olhe para a vida de Jesus.

"E vós, quem dizeis que eu sou"? Pergunta fundamental. Na verdade, Jesus está dizendo, porque vocês ainda estão caminhando comigo? O que vocês entenderam de tudo que ouviram e viram?

Dá-se a resposta de Pedro, "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". Temos dentro dessa resposta dois elementos importantes. Primeiro, Pedro, e a comunidade dos discípulos, reconhecem Jesus como Messias, como aquele que vai resgatar o povo que negou Deus no Gênesis. E segundo, ele o Filho de Deus, o Filho do Homem. Observemos que Pedro, ou pelo menos Mateus (judeu) faz Pedro proclamar o nome de Deus. Essa revelação não é possível por meio apenas do conhecimento humano. É preciso a experiência pessoal de Deus na vida, para que o Espírito revele quem é Jesus.

A resposta de Jesus para Pedro, serve para nós, "Feliz és tu (...) porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas meu Pai que está no céu". A experiência é humana. Mas  revelação é divina. A experiência se dá na observação das coisas da vida. Mas a revelação de Jesus nos pobres, nos pequeninos, é feita pelo Pai.

Então, todo aquele que reconhece a presença de Deus em Jesus, está apto a gerar "Igreja" na vida do outro. Está apto há ser sinal de misericórdia, de acolhimento, de ser missionário/missionária da Civilização do Amor.

O texto destaca não apenas a liderança de Pedro. Mas também, que a continuidade do trabalho de Jesus se reflete na comunidade, na Igreja. E que Pedro também passará pelas mesmas dores que Jesus. 

Uma pena que no próximo domingo não daremos continuidade ao texto, pois Pedro dirá a Jesus que ele não sofrerá. Jesus afasta Pedro e diz que o pensamento dele é de satanás. Mas essa, é uma outra conversa.

Façamos hoje esse exercício de contemplação. "E vós, quem dizeis que eu sou"? Amém.

Bom domingo.

Lembre-se: Fique em Casa. Ainda não estamos livres da contaminação do coronavírus. Não temos leitos suficientes nos hospitais para os casos graves. Tomem cuidado. Preservem-se. Lembremos sempre que confiar em Deus não é tentá-lo. "Não tentarás o Senhor teu Deus".

sábado, 20 de junho de 2020

Não tenhais medo!

Como a morte de pardais levou ao canibalismo na China

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 10,26-33



Disse Jesus a seus apóstolos: 26 Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. 27 O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! 28 Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! 29 Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 30 Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. 31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. 32 Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.

Palavra da Salvação.

Reflexão

O evangelho de hoje dá continuidade ao que refletimos no domingo passado. Ainda continuamos na catequese da missão, dentro do contexto do Sermão da Missão.

Nossa reflexão de hoje não pode ser dissociada da primeira leitura. A atividade profética está ligada a perseguição social, política e religiosa.

Jeremias, Jesus e a Comunidade, que são testemunhas reais da presença de Deus no meio de nós, serão perseguidos porque anunciam um Reino de Vida (Reino de Deus) em oposição ao reino de morte daqueles que só tramam a destruição, que só vivem da e para a violência, que viram às costas para proposta do vida gerado pelo Reino de Deus.

Na primeira leitura, Jeremias lamenta-se porque está sofrendo perseguição. Suas palavras não foram acolhidas pelos sacerdotes e pela comunidade que o escutava. Estão à sua espreita. Procuram prendê-lo por alguma palavra que diga que seja contrária às maldades de seu tempo.
Entretanto, ele sabe que sua ação é uma ação que vem de Deus. Jeremias nada mais faz do que falar das coisas de Deus e aquilo que Deus lhe pede, mesmo que vá contra os poderes constituídos, pois ele fala da defesa da vida.
Jeremias confia em Deus, "o Senhor está ao meu lado". E isso basta.

No evangelho, Jesus continua sua instrução aos seus discípulos e missionários. Ele nos mostra que todos e todas que assumirem a opção pelo Reino de Deus passarão por momentos de sofrimento e perseguição. As "regras" do Reino dos Céus, da nova sociedade, da nova humanidade, são contrárias ao interesses daqueles que governam para o mal.

Jesus declara que sua palavra, seus ensinamentos, seu evangelho não podem ficar restritos a determinados ambientes. Não podemos confinar a palavra de Deus apenas nos templos, ou nos nossos grupos religiosos, ou apenas às nossas práticas devocionais individualistas. Tudo que se ouve, tudo que se reza, tudo que se medita, deve ser proclamado em alto e bom som, "proclamai sobre o telhado". 

Para nós, no século XXI, os telhados são as redes sociais, e nossas emissoras de rádio e TV. Não podemos usar desses meios para manter a opressão. Não podemos usar desses meios para defender a morte, o racismo, as perseguições, a homofobia, a misogenia, a destruição da natureza, a eliminação da cultura e das terras indígenas. A vida de Jesus, seu pensamento, seu evangelho devem anunciados e vividos pela comunidade. Não se pode mais viver escondido.

Em seguida, ele nos alerta sobre o medo. Claro, todos temos medo. Faz parte da vida humana. Jesus teve medo, "Pai, afasta de mim esse cálice". O medo nos impe de sermos anunciadores da verdade. Em nome do medo nos calamos. Por medo, nos calamos diante da morte, dos atos de violência, de discriminação, de calúnias.
O medo nos faz dissociar o corpo da alma. Mas Jesus mostra a sua unidade. Corpo e alma fazem parte do mesmo ser. Aquele que busca Deus em espírito e verdade (alma), faz da sua vida um anúncio amoroso da comunhão divina com a humanidade (corpo).

Por último, Jesus declara que Deus nos dá a vida. O exemplo usado por Ele é muito significativo, pardais e cabelo. Duas coisas pouco valorizadas. Se Deus valoriza o que aos olhos dos homens não tem valor, quanto mais valorizará a vida daqueles que assumem o profetismo e o anúncio da Civilização do Amor. Onde as relações sociais são regidas pela aceitação, pelo acolhimento, pela solidariedade, pelo respeito, pela confiança em Jesus.

Concluo com um comentário do evangelho que li hoje:

"A comunidade que levar a sério a mensagem de Jesus, superando dificuldades e medos, anunciando com determinação a chegada do Reino, transformando situações de morte em vida, terá, não como prêmio, mas como consequência, a certeza do testemunho do próprio Jesus diante do Pai (cf. vv. 32-33). De fato, receber o testemunho de Jesus diante do Pai é a certeza de que a vida foi levada a sério. Levar a vida a sério e conduzi-la de acordo com o evangelho é um ato de coragem" (https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/12o-domingo-do-tempo-comum-21-de-junho/)Amém!

domingo, 14 de junho de 2020

"Reino dos Céus está próximo"

Jesus – Eu Preciso de VC | Grupo de Oração Ágape


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 9,36-10,8






Naquele tempo: 36 Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37'A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!' 10,1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: 'Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: O Reino dos Céus está próximo'. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Durante toda a semana que acabou, viemos refletindo sobre a catequese de Jesus, ou Sermão da Montanha, como é conhecido.

O texto de hoje está dentro da perspectiva do Sermão da Missão. Jesus escolhe e instrui seus discípulos como devem agir enquanto evangelizadores, enquanto missionários, enquanto pregadores e anunciadores do Reino do Céus. A quem deve ir primeiro.

Observemos o texto. "Vendo Jesus as multidões". Que multidão era essa que seguia Jesus? Temos por hábito olhar esse multidão do lugar social que ocupamos. Isso é normal. Nosso olhar para a história de Jesus difere do olhar de Jesus.

Qual é a multidão que Jesus vê? Ele vê as pessoas que perderam a esperança na vida; que não acreditam mais nas suas lideranças religiosas e políticas. Uma multidão de doentes: cegos, coxos, aleijados, leprosos, "endemoniados", famintos. Eram essas as pessoas que seguiam Jesus, pois encontravam nele refúgio, conforto, direção. São "ovelhas sem pastor".

Qual era a função principal do pastor? Alimentar, cuidar, dar a direção, proteger no redil. E as "multidões" não encontravam isso em seus pastores. Rumavam sem direção. Só eram cobradas, excluídas, rejeitadas.
Segundo, Jesus então, diz que a "messe é grande". Outra imagem. A messe é o lugar da colheita. Aquilo que se planta deve ser colhido. Mas é necessário que se tenham operários para isso. Mas, são poucos os operários. E Jesus mostra a necessidade de se pedir operários a Deus. Esse é outro tema interessante. Quem são esses operários? Quem pode ser operário da messe? Todo e toda aquele/aquela que esteja disposto/disposta a partir em missão. Não importa seu estado de vida, casado, solteiro, celibatário. Importa ter disposição. E isso, Jesus mostra naqueles que ele chamou, os doze. Cada um tinha uma origem. Cada um tinha uma visão de mundo. Cada um esperava um acontecimento. Mas, Jesus os reuniu para anunciar o Reino dos Céus.

Para anunciar esse novo reino é preciso ter coragem. Coragem para enfrentar os "espíritos maus", curar as enfermidades e doenças, principalmente as sociais. Espíritos racistas, misógenos, fascistas, homofóbicos, que só pensam em desmatar a Amazônia, que invadem terras indígenas.

Jesus enviou os 12 para as ovelhas perdidas de Israel. A alguns anos atrás, li um livro que tinha como título "Como evangelizar os batizados". Interessante, ele falava que os que já tinham sido batizados precisavam assumir seu batismo no mundo. Nas atitudes, nas palavras, nas ações. No se fazer diferente perante os pecados sociais que saltam aos nossos olhos. Isso é  anunciar que o "Reino dos Céus está próximo". E que essa boa nova seja dada de graça, pois a recebemos de graça.

Amigas e amigos, surge um esperança. Um novo jeito de vivermos está no meio de nós. O amor, a solidariedade, a fraternidade, o perdão, a aceitação, o carinho, o acolhimento. Gestos de Jesus que devem ser transmitidos por nós. Amém.

(O nosso texto de hoje é muito rico. Existem muitas mais coisas que poderíamos falar. Entretanto, como diz Santo Inácio de Loyola, "não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente").

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor."

Crítica | A Paixão de Cristo (2004)
Evangelho de Jesus Cristo segundo João 6,51-58 

("meu corpo é comida, meu sangue é bebida")



Naquele tempo: disse Jesus às multidões dos judeus: 51'Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo'. 52 Os judeus discutiam entre si, dizendo: 'Como é que ele pode dar a sua carne a comer?' 53 Então Jesus disse: 'Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem
e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55 Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. 56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele. 57 Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre.'

Palavra da Salvação.

Reflexão

Celebração da Solenidade do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Num determinado comentário, eu ouvi o pregador dizendo que a celebração de hoje se une à Quinta-feira Santa. Entretanto, a leitura do evangelho de hoje não faz menção a ceia pascal. 

O marca a leitura de hoje é Jesus dizer que seu corpo é comida, e seu sangue é bebida. Um linguagem simbólica, claro. Espero que você compreenda isso.  A catequese de Jesus é um ressignificar das práticas religiosas de seu tempo, e nos ensina que, em cada tempo histórico, devemos nós fazermos a releitura do mistério da sua vida, atualizar.

A celebração pascal tinha na refeição seu ponto central. Ervas amargas, pão sem fermento, carne. Tudo isso, revestido com as roupas de fuga, com as vestimentas de quem vai ter que sair correndo ainda durante a noite. 

Observemos que João destaca que Jesus se dirige a multidão dos judeus, e não aos seus discípulos, ou ao povo em geral. Essa é uma referência importante. Pois as palavras que Jesus falava estavam relacionadas diretamente com as práticas judaicas da páscoa.

Ao dizer que esse é o pão vivo descido dos céus, ele faz referência ao maná, com o qual Deus alimentava o povo no deserto toda manhã. E cada um tinha a porção necessária para aquele dia, não havia acúmulo. O maná não podia ser guardado. 

Jesus diz que sua carne é comida e seu sangue é bebida. O que significa isso? Jamais comeríamos a carne do Senhor em sua composição humana. E não beberíamos o sangue físico. Mas ele quer nos dizer que devemos ser um com ele através da imitação daquilo que ele fez. É dar-se. É consumir-se pela implantação do Reino de Deus no meio de nós. É viver fazendo o bem. É acolhendo a todas e a todos. Sem discriminação, sem racismo, sem violência contra os mais fracos. Não revidando as agressões sofridas. Sendo manso e humilde de coração. Procurando a Verdade. Buscando as ovelhas perdidas. Recolocá-las no redil. Ser misericordiosos. Sofrer as dores do mundo. Não de associar aos que matam, aos que destroem a natureza, aos que, pela corrupção, impedem que os pobres tenham saúde, educação, saneamento, transporte digno, momentos de lazer, estudo. 
Comer a carne, e beber o sangue é assumir a rejeição dos que são contrários a proposta de igualdade entre as pessoas, entre os irmãos.

A celebração de hoje não é para nos imobilizar diante do ostensório. A celebração de hoje não é para nos congelar dentro de templos. A celebração de hoje não para me fechar em fundamentalismos, em ritualísticas, em pompas e circunstâncias. A celebração de hoje é para nos impulsionarmos a aproveitar o momento de reclusão social (por conta do coronavírus) a nos dedicarmos a leitura e meditação da palavra de Deus, e fazermos bons propósitos para quando a vida puder ser vivida fora de nossos templos familiares.

"Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra da boca de Deus" (primeira leitura, Dt 8,3). O alimento sustenta o corpo, a palavra sustenta a vida, dá ânimo. Não podemos ficar somente no alimento físico. É preciso nos alimentarmos da Palavra de Deus.

Na celebração do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, busquemos nos alimentar da palavra de Deus, proclamada e meditada todos os dias. É tempo de ressignificar a celebração de hoje.

domingo, 7 de junho de 2020

Deus enviou o seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por ele.

A Ressurreição e Ascensão de Jesus Cristo ao céu | Paróquia Todos ...


Celebração da Solenidade da Santíssima Trindade.






Fazer memória da Trindade é lembrar que Deus é comunidade. Que age no mundo através de três dimensões. A dimensão do Pai que reflete a Inteligência amorosa; a dimensão da Vontade revelada pelo Filho na graça recebida; e a dimensão da Liberdade que gera comunhão através do Espírito Santo. 

A primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9) nos mostra um itinerário, um roteiro, de como orar. 

Inicialmente, temos um lugar de encontro com Deus; a disposição para fazer esse encontro. Moisés é conduzido ao Monte Sinai (à noite). É nesse lugar que se dará o encontro. Leva consigo as tábuas. Poderíamos dizer, que leva a Palavra de Deus.

Desse encontro de oração, Moisés nos ensina a vermos os atributos de Deus-Pai. Ele diz que Deus é "misericordioso, clemente, paciente, rico em bondade, fiel". Já nos indica como devem ser nossas ações, pois se somos feitos a imagem e semelhança da Trindade ("façamos o homem à nossa imagem e semelhança") devemos ter os mesmos atributos.

Uma humanidade que se identifica com Deus, não pode se esquecer das pessoas. Não pode discriminar, rejeitar, desejar a morte. 

Moisés, então, pede que Deus caminhe com seu povo ("caminha conosco"); implora para que perdoe as nossas culpas, apesar de "sermos um povo de cabeça dura". E por último, que o Pai nos acolha como sua propriedade.

Na segunda leitura (II Cor 13,11-13), Paulo nos indica dois caminhos a seguir, um pessoal, outro comunitário.

No caminho pessoal devemos trabalhar pelo nosso próprio aperfeiçoamento. E no caminho comunitário, devemos ir ao encontro do outro para encorajá-lo, para cultivar a concórdia, para viver em paz. Sendo assim, "o Deus do amor e da paz estará convosco". 

O aperfeiçoamento pessoal leva a ação na comunidade. Na sociedade. "Sede perfeitos como o vosso Pai é perfeito". "Ele faz nascer o sol sobre bons e sobre maus". Então, a luz de Deus ilumina a todos e a todas. Nossa luz, nossa perfeição não é para nós, mas para a humanidade, para os outros.

Assim, a GRAÇA do nosso Senhor Jesus Cristo; o AMOR de Deus; e a COMUNHÃO do Espírito Santo estará "com todos vós". 

Evangelho (Jo 3,16-18).

Este trecho está dentro do contexto do encontro de Nicodemus com Jesus.
No fim da primeira parte dessa conversa (Jo 3,15), Jesus afirma que o Filho do Homem será levantado "a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna".

O evangelho de hoje inicia com a seguinte fala de Jesus: "Deus amou tanto o mundo...". Disse Santo Inácio de Loyola, "o amor consiste mais em obras do que em palavras". O amor de Deus pelo mundo é tão grande que ele "deu o seu Filho unigênito". E, todo aquele/aquela que Nele crer terá a vida eterna, em oposição a morte eterna.

Deus não enviou o Filho para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, ao propor a contemplação  da Encarnação, afirma que a Trindade olhava a "superfície do mundo" e viram "como todos desciam ao inferno, determinaram, em sua eternidade, que a segunda Pessoa se faça homem para salvar o gênero humano" (EE - 102). Partindo dessa contemplação, somos chamados a VER a redenção do gênero humano em Jesus Cristo. E a redenção está em acreditar na Boa Nova anunciada por Jesus e pelos seus discípulos (Mc 16,15).
Crer em Jesus Cristo é crer na sua Boa Nova. Crer na Boa Nova é crer que é possível construir uma humanidade baseada no amor, na vida, na decência política. Acreditar em uma humanidade anti-racista, anti-misógena, anti-homofóbica. É crer na preservação do meio ambiente, na nossa "Casa Comum" (Laudato Si, 2015).
Cantemos com o Salmista, "A vós louvor, honra e glória eternamente"!

Que a GRAÇA do nosso Senhor Jesus Cristo; o AMOR de Deus; e a COMUNHÃO do Espírito Santo estará "com todos vós"


Evangelho de Jesus Cristo segundo João 3,16-18

16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito,
para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.
Palavra da Salvação.