quinta-feira, 20 de junho de 2019

CORPO DO CRISTO: CORPO HUMANO


“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes do Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (v. 11)
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

O dia de “Corpus Christi”, tradicionalmente celebrado na quinta-feira depois da Trindade, é festa do Deus feito carne e sangue humano, é festa cristã da humanidade de Deus, da divindade do ser humano.
Esta festa revela mil riquezas que deveriam ser realçadas no diálogo com a humanidade, afinal, o Corpo de Deus é, por Cristo, o ser humano inteiro, a humanidade completa; é festa cristã, mas que quer ser universal, a festa de todos aqueles que desejam vincular-se entre si, de um modo concreto, partilhando o pão, bebendo juntos o vinho da vida, em alegria e esperança, dispostos a colocar suas vidas a serviço da vida.
Festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos; festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivento; o Universo, com suas estrelas e galáxias, é um corpo imenso. Corpo sagrado, porque habitado pela presença divina.
Celebremos nosso corpo, tão maravilhoso e vulnerável! Cuidemos do corpo, sem torturá-lo com nossas obsessões, sem submetê-lo à escravidão de nossas modas e medos! Respeitemos como sagrado o corpo do outro, sem explorá-los! Sintamos como próprio o corpo do faminto, do violentado, do refugiado, da mulher violada, maltratada, assassinada... É nosso corpo; é o Corpo de Jesus; é o Corpo de Deus.

O corpo humano está, portanto, no centro da revelação cristã, pois se trata de algo assumido pelo mesmo Deus na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo, que se faz corpo humano e habita entre nós. Este gesto divino eleva e engrandece a corporeidade humana e a resgata para sempre, já que a divindade abraça a carne, acolhendo sua fragilidade para dentro de Si mesmo.
Deus se revela encarnando-se, assumindo um Corpo que sente, que vibra, que tem prazer e que sofre, uma carne que treme, vulnerável ao frio e ao calor, à fome e à sede. Corpo que comunga com nossa mortalidade, padecendo dor, agonia e morte, sendo sepultado entre as trevas da terra como toda criatura.
Frente a um contexto social e político que faz opção clara em favor da morte, os(as) seguidores(as) de Jesus proclamam em alta voz seu compromisso em favor da vida. É uma incoerência tremenda realçar o espírito da festa de Corpus Christi quando corpos são violentados, multidões são expostas à fome e miséria, pessoas e grupos são excluídos por preconceito, intolerância...
Sim, “Corpo de Deus”! Deus é como o pulsar íntimo, a energia originária, a criatividade inesgotável, a possibilidade infinita, a força do bem, a comunhão universal, a Presença plena em cada ser humano, numa eterna evolução; Deus é infinitamente “mais” que a soma de todos os corpos que compõem a humanidade. Somos n’Ele. Ele é em nós, infinitamente mais que um Tu separado. Toma corpo no trigo que se transforma em pão ou na vinha que floresce nos campos e se transforma em vinho; corpo que se faz alimento e alegra o coração, na promessa de nos re-conduzir às entranhas do amor do mesmo Deus.

Jesus fez do universo seu corpo e se faz pão e vinho para nós.
O pão suscita e cria Corpo…; Jesus não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma pura lei social, princípio religioso... Ao contrário, Jesus, Messias de Deus, é corpo, isto, é, vida expandida, sentida, compar-tilhada. O Evangelho nos situa desta forma no nível da corporalidade próxima: Jesus é corpo que quebra distâncias, acolhe o diferente e cria comunhão. Podemos dizer que Jesus desencadeia um “movimento corporal humanizador”; por isso, Ele se faz alimento que a todos sustenta, criando uma comunhão corpórea universal, pois ninguém está excluído.
Sabemos que o corpo é identidade e comunhão, individualidade e comunicação, a vida inteira alimentada pelo pão.  A antropologia de Jesus não é dualista, que separa corpo e alma. A festa do Pão divino está nos revelando que corpo não é aquilo que se opõe à alma, exterioridade da pessoa, mas pessoa e vida inteira.
Corpo é o mesmo ser humano enquanto comunicação e crescimento, exigência de alimento e possibilidade de morte: fragilidade e grandeza de alguém que pode viver o encontro com o outro, partilhando sua vida e suas energias, criando assim um “corpo” mais alto (comunhão) com todos.

Nesse sentido, a Eucaristia se revela como centro da vivência cristã. A transformação das relações humanas se dá através do partir o pão e do passar o cálice de vinho; como o pão é um, comer desse pão nos faz todos um. A Eucaristia faz de todos nós Corpo de Cristo. Daí o interesse da primitiva Igreja em que, na Eucaristia, todos comungassem do mesmo pão partido, com a finalidade de fazer visível essa unidade de todos.
Ao dizer “tomai e comei, isto é meu corpo”, Jesus vem ao nosso encontro como alimento; não vive para impor-se sobre os outros ou explorá-los, mas, pelo contrário, para oferecer sua vida em forma de alimento, a fim de que todos se alimentem e cresçam com Sua vida.
Tudo isto se expressa e se oferece em contexto de refeição entre amigos(as): não exige obediência, não impõe sua verdade, não se eleva acima dos outros, mas, em gesto de solidariedade suprema, se atreve a oferecer-lhes seu próprio corpo, convidando-os a partilhar o pão. Este oferecimento de Jesus só tem sentido para aqueles que interpretam o corpo messiânico, como fonte de humanidade dialogal, gratuita, expansiva...
Assim fizeram seus(suas) seguidores(as): após a Ressurreição, Jesus foi “reconhecido ao partir o pão”; foi reconhecido não porque estava no templo ou ensinava na sinagoga, mas porque partia o pão nas casas.
Por isso, no primeiro dia da semana, reuniam-se todos nas casas, oravam juntos, recordavam a mensagem de Jesus, comiam o pão, bebiam o vinho e a Vida ressuscitava. A isso chamavam, ‘ceia do Senhor” ou “fração do pão”.  Tudo era muito simples e despojado.

Segundo os relatos dos Evangelhos, durante sua vida pública, Jesus transitou por muitas refeições, propôs a grande mesa da inclusão e, para culminar, organizou com seus amigos mais próximos uma ceia de despe-dida e de esperança. Ali, ao partir o pão e passar o cálice, pediu que se recordasse dele toda vez que comes-sem ou bebessem juntos, reavivando a esperança de construir o mundo que todos esperavam. Eles se transfigurariam e o mundo se transformaria em Comunhão toda vez que este gesto fosse repetido.
Para isso, é preciso recuperar o lugar e o sentido da Eucaristia, para que não seja um rito puramente cultual. Para muitos cristãos, ela não é mais que uma obrigação e um peso que, se pudessem, tirariam de cima deles. A Eucaristia acabou se convertendo em uma cerimônia rotineira, que demonstra a falta absoluta de convicção e compromisso. A Eucaristia era, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo que podemos imaginar. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava. Eram conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido durante sua vida e se comprome-tiam a viver como Ele viveu.
Séculos depois, a simples refeição foi se complicando. A casa se converteu em templo, a refeição em “sacrifício”, a mesa em altar, o convite em obrigação, o rito em pompa, a partilha em exclusão...
A festa de “Corpus Christi” pode ser ocasião privilegiada para voltarmos ao mais simples e pleno, para além dos cânones, rubricas e indumentárias que não tem nada a ver com Jesus.
Basta nos reunir em um lugar qualquer, para recordar Jesus, compartilhar sua palavra, tomar o pão e o vinho, ressuscitar a esperança e alimentar o sonho do Reino.
Essa é a Missa verdadeira, a verdadeira missão.

Texto bíblico:  Lc 9,11-17

Na oração: Na su a comunidade, a celebração eucarística geramaior amor e compromisso em favor dos mais pobres ou se limita a ser um simples rito religioso obrigatório?
- Quais iniciativas concretas sua comunidade poderia fazer para que a participação na Eucaristia seja mais ativa e dinâmica?
- Sendo constituída por seguidores(as) de Jesus, como sua comunidade poderia se comprometer mais para levar aos outros o pão cotidiano, o pão do amor e da esperança, o pão do evangelho do Reino?

domingo, 2 de junho de 2019

Uma experiência mística!

A humanidade sempre se pautou pelas experiências místicas. A relação com o que não se vê, mas se percebe, faz parte da essência humana. 
Não importa como aconteça essa experiência de relacionamento. Ela é pessoal, intransferível, contagiante.
A nossa humanidade e presa aos acontecimentos de aqui e agora. São reais os fatos que vemos, ouvimos, tocamos. Acrescento que nossa
realidade é gustativa e olfativa. Trazemos em nós memórias. E essas passam pelos nossos sentidos. Um som traz lembranças boas (ou não); ver alguém, um objeto, uma cena nos remete a momentos bons (ou não); um jeito de abraçar, de acariciar, de acarinhar, pode nos recordar coisas boas (ou não); um "cheiro" pode lembrar um boa comida, um bom perfume, uma situação boa (ou não); um gosto, um sabor, quantas lembranças carregamos quando provamos uma boa "guloseima".
Assim, é a nossa liturgia de hoje. Ela está recheada de sensações humanas vividas pelos apóstolos, e transmitidas a nós.
Na primeira leitura (At 1,1-11), Lucas diz que já havia narrado as ações de Jesus em seu primeiro relato, o evangelho. E que agora, ele vai contar como foi a vida daqueles que foram as testemunhas oculares do ocorrido após a morte, ressurreição e ascensão do Senhor.
Logo em seguida, Lucas narra uma refeição. Local repleto de memórias. De cheiros, de gostos, de visões, de "barulhos" de conversas, de toques. Na refeição nos deixamos envolver pelas histórias do passado, olhando para o presente, nos preparando para lançarmos para o futuro. É na mesa que se dá a entrega. É na refeição que se faz libertação. É na mesa que fazemos memória celebrativa.
À mesa, podemos falar das coisas da vida. Do dia-a-dia. Daquilo que nos incomoda. Daquilo que queremos mudar. Das nossas expectativas, das nossas esperanças, das nossas frustrações, tristeza.
É numa mesa, numa refeição, que os apóstolos querem saber se Jesus vai restabelecer o reino de Israel. Percebam, eles querem se colocar no lugar de Deus. Querem determinar o tempo das coisas. Mas, Jesus é claro, não cabe saber o tempo dos acontecimentos divinos. A nós, nos cabe apenas sermos testemunhas dos acontecimentos. O tempo de Deus é de Deus. A nós, revestidos do Espírito Santo, nos é dado o "ânimo" do testemunho. Revestir-se do Espírito Santo é aceitar com alegria as dificuldades e dores, sabendo que o Pai está pronto a nos restaurar, a nos dar a vida em Cristo, a nos ressuscitar com Cristo.
A experiência humana da divindade nos leva a uma percepção maior daquilo que podemos ver com os olhos humanos. Ela nos impulsiona para uma certeza de que Deus se faz presente em nossas vidas através do espírito que abre a mente para o entendimento daquilo que estava oculto, ou que não se via com a racionalidade apenas.
Só pode subir quem desceu. Só volta, quem foi a algum lugar. Os apóstolos veem Jesus ir aos céus. Mas, só chega ao céu se se vive a humanidade dada por Deus. Jesus se tornou humano. E na sua humanidade, sofrida, ele se entregou para nos dar uma "divindade" perdida no não de Adão e de Eva. 
Já é hora de partir. De anunciar. De sermos portadores de esperanças a todos e a todas que querem fazer a experiência mística do encontro com Deus. Do encontro com nossa humanidade. Do encontro com nós mesmos.
Aproveitemos a festa da Ascensão. Olhemos para dentro de nós mesmos. O que preciso fazer para ser um discípulo/discípula missionário/missionária?

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"Quem recebe aquele que eu enviar, me recebe a mim"!

Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus lhes disse: 16Em verdade, em verdade vos digo: o servo não está acima do seu senhor e o mensageiro não é maior que aquele que o enviou. 17Se sabeis isto, e o puserdes em prática, sereis felizes. 18Eu não falo de vós todos. Eu conheço aqueles que escolhi, mas é preciso que se realize o que está na Escritura: 'Aquele que come o meu pão levantou contra mim o calcanhar.' 19Desde agora vos digo isto, antes de acontecer, a fim de que, quando acontecer, creais que eu sou. 20Em verdade, em verdade vos digo, quem recebe aquele que eu enviar, me recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.' (João 13,16-20).

Esta perícope inicia-se com o fim da cena do lava-pés.Jesus faz uma relação entre servo e senhor, e mensageiro e aquele que o envia. Não podemos querer ser maior daquele que nos envia, nem do que aquele que nos diz o que falar.
Jesus nos chama a uma humildade que prega não aquilo que queremos dizer, mas o que é necessário ser dito. Não somos nós a figura central. O servo não é o Senhor. O servo não pode ser como o Senhor. Se isso acontece, a uma inversão de valores, e de verdades. 
O mensageiro fala daquilo que ouviu de quem o enviou. Ele ouve a voz, e proclama aquilo que o Senhor quer que seja dito. O mensageiro não pode se calar, nem inventar aquilo que não foi dito. O mensageiro é fiel a palavra, pois ele é ouvinte.
Quem ouve anuncia. Quem anuncia serve àquele que o enviou para proclamar a palavra.
Sejamos orantes da Palavra de Deus. Façamos a Lectio Divina. Sejamos servos da Palavra. Nossa pregação não pode ser vazia de humanidade, nem sem sentido de vida. A Palavra de Deus é vida. A Palavra de Deus está ao lado dos pobres, dos excluídos.
Sejamos ouvintes atentos. Sejamos mensageiros da verdade e da justiça. Não somos senhores, somos servos.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Meu espírito exulta em Deus meu Salvador!

O título de minha postagem é um trecho do cântico de Maria, mãe de Jesus. Está no evangelho de Lucas, capítulo 1, versículo 47.
É tão bonito ler e rezar essa perícope. Nos dá uma consolação e tanto.
Maria, inicialmente, glorifica a Deus, exalta seu nome. Nos faz ver que a sua humildade chamou a atenção de Deus.
Em seguida, ela afirma as gerações futuras hão de chamá-la de feliz, pois o poderoso realizou, através dela, grandes coisas; e por isso seu nome é santo e sua misericórdia não falta.
Depois da oração de louvor, de agradecimento, de reconhecimento de sua pequenez, mas da força que Deus lhe dá com misericórdia, ela descreve a ação de Deus na vida da humanidade.
Primeiro, Ele despreza, dispersa aqueles que tem planos malignos para com os seus filhos através da força de seu braço. Deus está ao lado dos humildes, dos perseguidos,dos excluídos. O Deus de Maria e de Jesus não está nos palácios, nas catedrais, nos templos suntuosos. Ele está ao lado dos humildes.
Segundo, Deus não está junto com os poderosos. Ele está com os despossuídos de poder, de influências políticas escusas. Deus eleva os humildes derrubando dos tronos, das cátedras, das mesas diretoras, dos espaços de poder corruptos, de presidências, os poderosos, ou aqueles que pensam tê-lo.
O Deus cantado por Maria sacia de bens os famintos. Aqueles que tem fome e sede de justiça. Aqueles que são promotores da paz. Ele alimenta os famintos e manda embora (despede) os ricos.
Maria, mãe de Jesus, é uma pequena jovem que está atenta aos sofrimentos dos pobres. Daqueles que se submetem a um mísero ou pouco salário para dar de comer a seus filhos/filhas. Maria é a mãe que chora o assassinato de um filho/filha. Maria é mãe que reza pelo filho/filha que se envereda pelas drogas, e principalmente, no mundo do crack. Maria é mãe que passa um noite inteira na porta de uma creche ou escolha para conseguir uma vaga para um filho/filha. Maria é a mãe que na calada da noite acorre a uma UPA, ou emergência para levar um filho/filha que não consegue respirar direito, ou está com febre, e descobre não haver médico/médica para fazer o atendimento. Maria é a mãe que se faz presente na porta de um presídio quanto tem notícias de alguma rebelião. Maria é a mãe que acolhe nos braços o filho/filha mortos pelas armas de fogo.
Mesmo nas dificuldade, Maria não perde a fé. Seus pés esmagam a cabeça da serpente. Ela sabe que Deus acolhe seus servos, pois sempre lembra de sua misericórdia.
Maria não se esconde dos sofrimentos do povo. Ela é mãe das Dores, do Desterro, do Socorro (perpétuo), dos Aflitos. Ela é a mãe de tantos sofrimentos que tenhamos na vida. E se fez mãe porque sabe que Deus está conosco, pois "se Deus é por nós, quem será contra nós"?

"As minhas ovelhas escutam a minha voz"!

No evangelho de João, capitulo 10, lemos o discurso de Jesus sobre ser o Bom Pastor. A perícope do dia 12 de  maio de 2019, 4º Domingo da Páscoa, trouxe esse texto. O evangelho proclamado nas missas compreendia os versículo de 27 a trinta.
Logo no início, Jesus diz que as suas ovelhas escutam sua voz. Escutar é estar atento aquilo que se fala. E partimos desse breve texto para refletirmos sobre o que Jesus diz para que fiquemos atentos a sua voz.
Apesar de termos quarto narrativas da atividade pública de Jesus, não podemos separa-la do conjunto. Cada evangelista escreveu para um determinada comunidade, levando em conta as necessidades espirituais e materiais dela. 
Assim, qual a voz de Jesus que se houvia? Lembro aqui dois momentos que me marcam muito (pode ser que surjam outros no decorre do texto) no evangelho do próprio João. Primeiramente, transformar água em vinho. A mudança de vida. De aguada à processada, transformada, motivadora de unidade, alegria e felicidade. Em seguida, o encontro com a Samaritana. Aquela que parte das coisas da terra para as coisas do céu. Ela, tal como os serventes, ouvem a voz de Jesus e lhe dão crédito. No primeiro caso, precisavam de vinho, mas levaram água. No segundo, "venham ver, ele falou tudo sobre minha vida". Deram crédito a Jesus.
E nós? Deixamo-nos envolver pela palavra de Jesus? Estamos atentos à sua voz? Estarmos na missa, rezarmos o terço, participarmos de grupos de oração e de círculos bíblicos nos faz diferentes?
Ouvir a voz de Jesus é ficar atento aos famintos, aos sedentos, aos nus, aos encarcerados, aos doentes, aos refugiados. Mas, é, ao mesmo tempo, questionar porque existem famintos, sedentos, nus, encarcerados, doentes abandonados, refugiados. Quais são as estruturas de poder que levam a isso?
E, ao mesmo tempo, nos sentirmos bem aventurados porque somos capazes de fazer a experiência de Deus.
O evangelho de hoje nos chama a sermos promotores da "Civilização do Amor".
Jesus é o Bom Pastor. Ele nos deu o exemplo para que possamos ser na vida dos que sofrem, dos que são excluídos, bons pastores também.
Sejamos cristãos que mudam as relações sociais. Que denunciam as injustiças. Que são contras as situações de morte que se nos colocam diante dos olhos.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Conceitos e Pré-Conceitos

(Jo 3,7b-15)
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 7b“Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”. 9Nicodemos perguntou: “Como é que isso pode acontecer?” 10Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas? 11Em verdade, em verdade, te digo, nós falamos daquilo que sabemos e damos testemunho daquilo que temos visto, mas vós não aceitais o nosso testemunho. 12Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? 13E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.

A leitura do evangelho de hoje nos leva a uma interessante reflexão, nossos preconceitos.
Nicodemos, homem letrado, figura importante do sinédrio, vai até Jesus para entender quem Ele era.
Jesus propõem a Nicodemos um jeito novo de olhar as coisas, "nascer do alto". Livrar-se daquilo que lhe prendia às coisas da terra, que faz olhar com os olhos da lei, e não do amor misericordioso de Deus.
A leitura de hoje nos leva a pensar nas coisas que nos prendem à terra e nos impede de olhar para o alto.
Vamos nos renovar. Buscar as coisas do alto. Nascer da água e do Espírito. Deus é Pai de todas e de todos.

domingo, 21 de abril de 2019

"A pedra tinha sido retirada do túmulo"!

João 20,1-9

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: 'Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram.' 3Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. 8Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

Ao olharmos o evangelho de hoje, nos deparamos com uma cena um tanto quanto inusitada. Uma mulher que vai a um túmulo se encontrar com um morto. 
A primeira vista, parece algo não comum para nós. Mas, a cena de hoje, deve ser vista de vários pontos.
Primeiro, o horário. O texto fala do primeiro dia semana. Para nós, seria a segunda-feira, o dia após o Domingo. Neste caso, fala-se do dia após o Sábado, dia sagrado para os judeus. Era a "primeira-feira". Um dia após o repouso religioso judaico. Um dia como outro qualquer. A vida diária logo logo voltaria ao normal. Mais um dia como outro qualquer.
A personagem principal, Maria Madalena, foi aquela da qual Jesus havia expulsado sete demônios (Lc. 8,2). 
É interessante observar porque João registra a presença de Madalena, e não de Maria, a mãe de Jesus, junto ao sepulcro naquela hora. Madalena havia sido libertada de sete maus espíritos. Tinha sido libertada da escravidão espiritual. Tinha tanto agradecimento a Jesus que a ideia de não tê-lo mais por perto lhe assustava internamente. Como seria a vida dela sem Jesus? 
Maria foi ao túmulo. Ainda pela madrugada. Muito cedo. Antes do raiar do sol. A marcação do tempo litúrgico judaico ia o por do sol da sexta-feira, até o nascer do sol no primeiro dia semana. Parece que ela "transgride" uma lei, tal como Jesus fez várias vezes.
Ela chega ao sepulcro. E se depara com uma visão inusitada, "viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo".
Assustada! Extasiada! Surpresa! Ela corre em direção aos apóstolos. Vai ao encontro de Simão Pedro. Procura por João, o novo filho da mãe de Jesus (ou o discípulo que Jesus amava).
Ainda sem compreender direito o que havia acontecido, ainda com os olhos humanos, ela diz que "tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram". Neste ponto, percebemos que ela não havia ido sozinha ao túmulo. Pois, ela diz "não sabemos". No plural. Havia outras pessoas que o evangelista não revela quem eram.
Pedro e os discípulos correram. Foram ao sepulcro. Deram crédito à Madalena. E foram verificar a notícia "in loco". Era preciso saber o que estava acontecendo. 
Um dos discípulo, que a teologia diz ser o próprio João, chegou primeiro que Pedro. Observem, é uma relação de amor. Primeiro, Madalena, como dissemos, da qual havia sido expulso sete demônios, e tinha muito amor por Jesus. Segundo, o discípulo que Jesus amava. Esses dois tinham pressa em saber o que estava acontecendo. E por último, chega aquele que havia negado, e que depois será confirmado no amor a Jesus e ao rebanho. A relação amorosa nos leva a esse encontro. Quanto mais amor, mais doação.
Ao chegarem ao túmulo, observam os panos que envolviam o corpo de Jesus à parte. 
O evangelista narra que eles foram embora para casa, pois ainda não tinham compreendido a Escritura (que dizia que Jesus deveria ressuscitar dos mortos).
Ao final de hoje, perguntamos, e nós compreendemos que Jesus ressuscitou dos mortos? E nós, cremos nas Escrituras? E nós, cremos num Deus que se fez ser humano, assumiu nossas dores, passou pela tortura, foi morto e sepultado? Cremos na ressurreição? Na volta à vida? De uma vida nova?
Eis o que celebramos hoje. A esperança na vida. Apesar das dores, das mortes, das torturas, das perseguições, a vida resiste, ela não é tragada pela morte. A vida renasce naqueles que denunciam as injustiças, e que anunciam a esperança.
Cristo Ressuscitou! Vive no nosso meio! Aleluia!