sexta-feira, 29 de julho de 2016

Doutrina Social da Igreja

Vamos iniciar o processo eleitoral para os municípios do país.
Debates. Propostas. Programas de governo. Tudo isso será colocado em questão. Infelizmente, nesse ano, temos as olimpíadas (que tenho chamado de olimPIADAS) para desvirtuar nossa atenção. As convenções partidárias estão ocorrendo. Candidatos estão sedo escolhidos. Programas discutidos. Não podemos deixar o foco na nossa vida ser desviado por conta das olimpíadas.
Antes que haver questionamento sobre quem vamos apoiar, é importante de onde deve partir nossa orientação. Antes de escolher um candidato e um partido lembre-se de saber qual a história política dele. Não basta não ter tido cargo eletivo para que isso o faça um bom candidato. Devemos pesquisar qual foi a atuação política dessa pessoa. Qual sua história de engajamento social. O que pensa sobre vários assuntos. Acrescente-se a isso o partido que ele pertence. Isso mesmo. Nossa política é partidária e não pessoal. Os candidatos devem estar filiados em um partido. São livres para escolher o partido que quiserem. E quando se filiam significa que concordam com o programa daquele partido. E todo partido deve ter um programa de governo. É no programa que se encontra aquilo que o partido pensa em relação a como devem ser as relações sociais.
Tendo em vista este preâmbulo, a partir de hoje, vou trabalhar os doze princípios da chamada Doutrina Social da Igreja. Apesar que alguns preferem Ensinamento Social da Igreja.
Sendo assim,ao longo desse período, antes de escolher seu candidato ou o partido no qual vais votar, estude, reze e leia o que diz a Igreja como nós católicos devemos agir.Vou apresentar e comentar os princípios da Doutrina Social da Igreja, a saber: "Subordinação da ordem social à ordem moral estabelecida por Deus"; "A dignidade da pessoa humana"; "A solidariedade"; "O bem comum"; "A opção preferencial pelos pobres"; "Não ao capitalismo liberal"; "Não ao socialismo"; "Sim a ação subsidiária do Estado"; "Sim a socialização"; "A prioridade do trabalho sobre o capital"; "A destinação universal dos bens, sem prejuízo do direito de propriedade privada"; "O justo salário".
Em breve começarei a publicação dos artigos. 
Deus vos abençoe.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

“O Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”!(Lc. 11,1-13)

“Senhor, ensina-nos a rezar”! Toda pessoa que busca estar em sintonia com o mistério divino sabe que somente através da oração, meditação, leitura orante chega a ouvir, entender e viver a vontade de Deus.
Com os discípulos de Jesus não foi diferente. Eles viram que os discípulos de João tinham um jeito de relacionar-se com Deus, do jeito de João, e agora querem aprender com Jesus como relacionar-se com Deus.
A vida de Jesus só fazia sentido porque ele vivia aquilo que ele orava. Jesus aprendeu que uma oração que não levasse a um encontro com o outro, tornar-se-ia vazia, sem sentido, egoísta, individualista.
Os discípulos queriam aprender com o mestre como se relacionar com Deus. Por isso, pedem a Jesus que os ensine a rezar.
A relação de Jesus com o Pai era tão grande e íntima, que Ele queria que seus discípulos vivessem essa relação.
Primeiro, devemos ter uma relação de paternidade com Deus. Ele não está longe. Encontra-se bem perto, como um pai-mãe. Mas, como é criador, seu nome é santificado, ou seja, na cultura judaica não deve ser pronunciado. Por isso, Jesus indica “aquele que é” como Pai. Deus caminha junto (em seguida, com as duas histórias seguintes, vamos entender a relação de Deus com a paternidade). Pai, santificado seja o teu nome. Você é meu Pai, mas eu vos reverencio como aquele que é criador; é todo poderoso; criador das coisas visíveis e invisíveis. Ou seja, ele é o responsável pelo que somos. As coisas visíveis é o que fazemos, as invisíveis, as coisas que vão no coração, na psique. A paternidade divina cria uma relação de intimidade com Deus. Ele não está mais distante, pois seu Reino está no meio de nós. O Reino, que é da do Pai, está próximo. E é o Pai que a de prover tudo nesse Reino.
Todo pai acolhe, abriga, provê. O Reino de Deus é esse lugar. Lugar do acolhimento, do abrigo, onde se alimenta e se vive bem. Por isso, Jesus ensina a pedir esse reino: “Venha o teu reino”. E o que vamos encontrar nesse Reino? O pão necessário que precisamos; a remissão dos pecados, o fim das tentações.
O pão, alimento comum em todas as culturas, deve ser pedido a Deus. Já na oração de Jesus ele se insere em todas as culturas. O pão é o alimento mais primitivo (primeiro) que a humanidade produz. O pão está presente em todas as mesas, pelo menos assim esperamos. O pão traz em si um simbolismo. Ele alimenta o corpo, quando feito de farinha, água e fermento; mas por outro lado, alimenta a alma, o espírito quando a Palavra de Deus é meditada, orada, internalizada e colocada em prática. Por isso, após santificar o Pai, que está no seu Reino, devemos pedir que o alimento necessário à nossa subsistência diária nos seja dado.
Pai-Santificado-Reino-Pão, ai está o que precisamos para nossa vida espiritual. Mas se temos um Pai significa que temos irmãos. E se temos irmão/irmã, devemos ter uma relação com esse irmão/irmã. E de que forma isso se dá? A relação de fraternidade se concretiza através do perdão, da misericórdia, da caridade. Por isso, purificamos nossa existência através do perdão. Todas as vezes que ofendemos ao Pai, pecado, rompemos nossa relação de fraternidade com o irmão/irmã. Então, é preciso perdoar o outro para que tenhamos nossos pecados perdoados. Jesus relaciona o pedido de perdão às ofensas com o perdoar o próximo/a.
E por fim, nos ensina a pedir que não caiamos em tentação. Mas que tentação? A tentação de não perdoar. A tentação de não agir com misericórdia. A tentação de se esquecer do irmão/irmã. A tentação do egoísmo, do individualismo. Da falta de misericórdia, de caridade, de compaixão, de acolhimento. De suportar os erros do próximo/a (uma das obras de misericórdia espiritual: “sofrer com paciência as fraquezas do próximo”). Essa é a maior das tentações, a indiferença. Deus não nos é indiferente.
Deus é o Pai que sabe dar coisas boas a seus filhos/as, mesmo que estes sejam maus, que reneguem o Pai, que não aceitem o alimento diário, que não perdoem seu/sua próximo/a. “Deus não pode não amar”, pois “Deus é amor”, sempre é amor. O amor é personificado no Espírito Santo. Por isso, Jesus diz que devemos pedir o Espírito Santo, ou seja, pedir o amor, pois o amor tudo suporta, tudo espera, tudo crê, tudo desculpa.
Por fim, lembre-se sempre de máxima: “Deus-Pai é o que ama; o Filho é o amado; e o Espírito Santo o amor”! Lembre-se, quando pedimos o Espírito Santo estamos rogando a Deus que nos envie aquele que nos faz amar o Filho, que nos mostra o Pai que é aquele que ama. E Deus ama o Filho e todos os que estão no Reino e perdoam as ofensas dos outros.

OREMOS: Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

“Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20)

Algumas vezes na vida nos deparamos com algumas situações que não sabemos que atitude tomar; ou o que dizer; ou ainda, como reagir.
Os discípulos de Jesus haviam presenciado uma situação de calamidade pública. Pessoas com fome. Mas mesmo estando nesta situação, tinham forças para ir até Jesus. Vendo aquele povo, Jesus teve compaixão, pois não tinham o que comer. Sabendo de sua missão de anunciar aos pobres a boa nova, e que nem só de pão vive o homem, Ele sabia que o pão alimenta o corpo para que a alma se predisponha para ouvir, entender e acolher a Palavra de Deus.
Este ó preambulo para a compreensão do evangelho de hoje, Mateus 16,13-19.
Os apóstolos estavam sempre com Jesus. Viam suas ações. Ouviam suas palavras. Presenciavam os conflitos com os quais Jesus tinha com os fariseus e saduceus. As disputas religiosas em torno do como vivenciar a experiência pessoal com Deus.
Jesus levou seus discípulos para fora do burburinho da cidade. Um lugar à parte. Cesárea de Filipe. Esta região era afastada de Jerusalém. Vizinha a Galileia. É aí onde Jesus fará a pergunta que todos nós fazemos a nós mesmos em algum instante da vida: “Quem sou eu”?
É a pergunta fundante de nossa existência. Queremos saber quem somos nós e qual a nossa missão nesta vida. Para que existimos. Qual nossa missão nessa vida. Para cada um de nós, Deus designou uma tarefa.
Ao perguntar aos seus discípulos “e para vós, quem sou eu”? Jesus quer saber, primeiro, se os apóstolos sabem quem eles mesmos são. Porque o estão seguindo. Porque deixaram tudo para ir atrás dele. Então, a primeira pergunta a ser respondida é “Quem sou eu”? Mas não é uma resposta superficial que ele quer. Essa pergunte é a base de nossa existência. É uma pergunta que vai ao profundo do nosso ser. Que vai além das aparências. Que busca nas raízes da nossa humanidade o encontro com o criador. “Quem sou eu”?
Mas nós nos reconhecemos como pessoas diante de outro. É ele quem nos dá identidade. É o outro que me fez refletir sobre a minha pessoa. Então, Jesus pergunta “Quem sou eu”? Se somos discípulos, buscamos um traço de nossa identidade, de nossa personalidade, de nosso “eu” no próprio Deus. Pois ele é nossa fonte geradora, a força motriz do nosso “eu” que está no sopro de vida dado pelo criador no momento do nascimento da humanidade, do ser humano.
Pois bem, se sabemos quem somos, sabemos também onde queremos ir. O que queremos alcançar. Com que quem queremos partilhar a vida. Assim, Jesus quer saber se seus discípulos conseguem ver com os olhos dos outros quem ele é. Daí, então, a pergunta, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem”? Ou seja, você identificar o que as pessoas falam de mim? Você consegue se ver nos outros? Você consegue ver o que os outros pensam de mim, Jesus? As respostas são múltiplas e variadas. Os outros olham Jesus como sendo uma representação do passado. Alguém distante da realidade deles. 
Então, a pergunta, “e vós quem dizeis que eu sou”? E vós, diante daquilo que vocês acompanham e ouvem, e vós que caminham comigo, e vós que fizeram a experiência do próprio eu, “quem dizeis que eu sou”?
A resposta não poderia ser outra. “Tu és o Filho do Deus vivo”. Tu és a razão de nossa existência. Tu és aquele que está na minha essência, na minha existência, no princípio de tudo. Meu eu, minha identidade humana faz sentido somente contigo. Tu és Deus! E como tal, tu atinges o mais fundo do meu ser. Sem ti, minha existência, minha identidade perde sentido. Meu “eu” fica sem rumo, perdido, a deriva. 
Jesus passa a ser a rocha onde tudo se constrói. Onde toda a existência está sustentada. Sem ele, ficamos perdidos no passado. Numa distância que cega e não deixa ver a realidade nova que se aproxima. É Jesus que dá a chave para a nova vida. Seres humanos novos. Livres do que escraviza. Do que aprisiona. Do que mata. Do que se desliga do céu. 
Deixe Jesus fazer parte de sua vida. Deixe Jesus fazer parte do seu eu. Não tenhas medo de que ele seja o seu próprio eu, como disse São Paulo, “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20).
Ao fim de nossa vida terrena, poderemos dizer, “combati o bom combate,  completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7).

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Diaconia da Caridade

Diaconia da Caridade
“(...) garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram”. (Mt 25,40).
Há uma música, chamada “Se calarem a voz dos profetas” de Cecília Vaz Castilho, que num dos versos diz, “no banque da festa de uns poucos, só rico se sentou; nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou”.
No rito da ordenação, quando o bispo impõem as mãos sobre os candidatos ao diaconato, ele diz, rogando a Deus-Pai, “resplandeçam neles as virtudes evangélicas: o amor sincero, a solicitude para com os enfermos e os pobres, a autoridade discreta, a simplicidade de coração e uma vida segundo o Espírito”. E conclui a oração, dizendo, “assim, imitando na terra o vosso Filho, que não veio para ser servido, mas para servir, possam reinar com ele no céu”.
Os Diáconos Permanentes são chamados a estar juntos aos “pobres” de Deus. Devemos oferecer toda nossa liberdade, todo o nosso querer, e toda a nossa vontade aqueles que estão afastados da casa do Pai, os pobres, pecadores; os famintos e sedentos; os nus; os doentes e aprisionados; os peregrinos sem moradia.
A caridade diaconal vai muito além da assistência social. A Congregação para o Clero, no documento Diretório do Ministério da Vida dos Diáconos Permanentes (157), capítulo II, que trata do Ministério do Diácono, e fala da Diaconia da caridade (38,2), diz que “as obras de caridade, que se encontram entre os primeiros deveres do bispo e dos presbíteros” são “transmitidas (...) aos diáconos”. Segue o documento dizendo que “o serviço da caridade na área da educação cristã; a animação dos oratórios, dos grupos eclesiais jovens e das profissões laicais; a promoção da vida em todas as suas fases e da transformação do mundo segundo a ordem cristã”. E acrescenta que “nestes campos o seu serviço é particularmente precioso, porque, nas atuais circunstâncias, são muito diversificadas as necessidades espirituais e materiais dos homens às quais a Igreja deve responder”.
Tendo em vista, as “diversificadas necessidades espiritais” do homem contemporâneo, a CNBB, no documento 96 (Diretrizes para o Diaconato Permanente da Igreja no Brasil) nomeou os campos de atuação do diácono permanente: “(...) o diácono assume a opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos. Ele é apóstolo da Caridade com os pobres, envolvido com a conquista de sua dignidade e de seus direitos econômicos, políticos e sociais. Está próximo da dor do mundo. Deixa-se tocar e sensibilizar pela miséria e pelas provações da vida”. Em seguida, ainda no mesmo parágrafo, citando o Documento de Aparecida, parágrafo 402, concluem que o diácono “reveste-se de especial compaixão pelos: migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os tóxicos-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados/as, os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os trabalhadores das minas”.
Da leitura atenta e orante da Palavra de Deus, vemos Jesus compadecendo-se das misérias humanas. Em Lucas 9,13, diz “vocês é que têm de lhes dar de comer”. O Diácono Permanente é chamado a dar de comer aos famintos, e não somente do pão que alimenta o corpo, mas também do pão que alimenta o espírito. “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4,4).
A promoção da justiça, a reinserção dos excluídos é uma exigência evangélica colocada para os Diáconos Permanentes. “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6). E ainda, a reclamação dos cristãos de origem grega quanto a precariedade do serviço prestado a eles (principalmente as viúvas), fez com que os apóstolos instituídos servidores, diáconos, para que todos pudessem ser atendidos a contento. Então, decidiram que escolhessem aqueles que lhes prestariam tal serviço, “e nós os encarregaremos dessa tarefa”.
Ao sermos ordenados diáconos, somos encarregados das tarefas as quais nos pede a Igreja (CNBB, doc 96, n. 58). Viver a diaconia conforme nossa especificidade é servir a Deus, à Igreja, e às necessidades de todos aqueles que estão dentro e fora da comunhão eclesiástica, pois, disse Jesus, “eu não vim para chamar justos, e sim pecadores”, e como ministros da diaconia, é a eles que somos enviados, em nome da Igreja, por força da imposição das mãos do bispo.

Assim, podemos repetir com Jesus, “estou no meio de vocês como quem está servindo” (Lc 22,27).

terça-feira, 14 de junho de 2016

Que o SALÁRIO do operário não fique com você até o dia seguinte"

Para quem acha que a Palavra de Deus não se preocupa com as questões sociais, vejam esse breve levantamento sobre a questão salarial. Desde o Primeiro Testamento, judaico, essa questão era posta para os governantes e ricos:

1. Levítico, 19,13 - "Não oprima o seu próximo, nem o explore, e que o SALÁRIO do operário não fique com você até o dia seguinte".

2. Deuteronômio 24,14-15 - "Não explore um ASSALARIADO POBRE (...). Paga-lhe o SALÁRIO a cada dia (...) porque ele é pobre e sua vida depende disso".

3. Jó 7,1a.2b - "O homem vive na terra cumprindo um serviço (...) e, como diarista, espera seu SALÁRIO".

4. Eclesiástico 34,22 - "Mata o próximo quem lhe tira seus meios de vida, e derrama sangue quem priva o operário de seu SALÁRIO".

5. Malaquias 3,5 - "Eu virei até vocês para fazer um julgamento: serei uma testemunha atenta contra os (...) que roubam o SALÁRIO do operário".
Já na era cristã, tanto os evangelistas quanto os autores das cartas cristãs, falam do pagamento dos salários.

6. Lucas 10,7c - "(...) porque o trabalhador merece o seu SALÁRIO".

7. Primeira Timóteo 5,18b - "O operário é digno do seu SALÁRIO".

8. Tiago 5,4 - "Vejam o SALÁRIO dos trabalhadores que fizeram a colheita nos campos de vocês: retido por vocês, esse SALÁRIO clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos do Senhor".

domingo, 12 de junho de 2016

Fé, Amor, Perdão: Misericórdia. (Lucas 7,36-8,3)

Fé, Amor, Perdão: Misericórdia. É o que nos leva a meditar hoje sobre esta perícope. Alguns fatos nos vão enredando nesta leitura: um fariseu convida Jesus para uma refeição, não é coisa qualquer, há um desejo de fazer comunhão com o convidado; Jesus aceita, entra na casa, põem-se à mesa, pelo fim da leitura, supomos que os doze estavam com ele, bom como outras pessoas. A partir desta ambientação, composição da cena, desenrola-se toda a catequese da “fé, amor, perdão”.
Antes, vamos definir o que era ser fariseu. A palavra fariseu significa “separados”, “santos”, “puros”. Era um grupo que acreditavam na lei oral, tanto quanto na lei escrita, Torá. Poderíamos dizer que eram os “fanáticos” religiosos do tempo de Jesus. Se olharmos para os nossos dias, e dentre nós, católicos, poderíamos dizer que são aqueles que vivem a fé, e a prática religiosa, apenas por obrigação legal. Deixam de lado a fé, o perdão, o amor, enfim, não são misericordiosos.
Voltemos ao nosso texto. Após a ambientação, notamos que uma pessoa, aparentemente impura, dentro das leis farisaicas, adentra a cena. Uma mulher. Uma pessoa. Uma excluída da comunidade. Rejeitada. Com a pecha de “pecadora”. Ela passa a tocar Jesus.
Mas antes de falarmos do que fazia aquela mulher, observemos que se ela entrou na casa, na sala de refeição, na intimidade da família, significa que era uma frequentadora daquela casa. Ou era parente de alguém daquela família. Ou era uma “serviçal” daquela família. É igual as nossas famílias. Temos todo tipo de pessoas, santas e pecadoras.
Entra em cena a mulher, pecadora segundo as leis farisaicas. Ela se posta atrás de Jesus. É uma cena interessante. Não havia cadeiras, como conhecemos hoje. As refeições eram feitas quase ao nível do chão. Havia uma trave onde as pessoas quase se ajoelhavam. Colocavam os pés para trás. Por isso a mulher tinha acesso aos pés de Jesus, por trás. Não estava à sua frente. Não ousou olhar nos olhos dele, não fitou o seu rosto. O gesto da mulher é quem reconhece a divindade daquele homem, mas não tem coragem de olhar para ele. É a mesma coisa que fazia o publicano, olhando para baixo, reconhecia-se pecador. Aquela mulher não era do grupo dos fariseus. Ela se sabia pecadora. Mas reconhecia a divindade de Jesus. Por isso, não olha no seu rosto. Aproxima-se dele. Por trás. Humilha-se. Arrasta-se aos pés.
Ela se aproxima. Lava os pés de Jesus com suas lágrimas. Enxuga-os com seus cabelos. Beija-os. E os perfuma. Ela não tinha mais nada a perder. Toda a sua dignidade havia sido perdida. Já era pecadora mesmo. A exclusão já fazia parte de sua vida. A sua única chance de perdão estava naquele homem.
Entretanto, o legalismo religioso do fariseu não o fazia enxergar Deus em Jesus. Não acreditava que Deus poderia resgatar os pecadores. Toda a sua fé estava baseada apenas nas leis, nos preceitos, no que “pode ou não pode”. Por isso a dúvida tomou conta de seu coração, “Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora”. A partir de então, começa a catequese da misericórdia.
A parábola que Jesus conta basta voltar ao texto. O que nos interessa nesse momento, são as comparações. “Lavar os pés”, “o beijo da saudação”, o “óleo na cabeça”. Gestos que qualquer observante da lei deveria fazer ao receber um convidado. Ou no máximo, mandar um empregado fazer. Ao menos o beijo da saudação o dono da casa deveria ter feito.
Todo o ritual farisaico não foi cumprido pelo dono da casa. Entretanto, aquela mulher isso o fez. Ao humilhar-se, estando fora da mesa da convivência, fora da comunhão, ela usa de todo o rito. Lava os pés de Jesus e beija-o. Enxuga com os cabelos. E os perfuma. Ela viu naquele homem a presença de Deus. A presença de Deus que perdoa, que acolhe, que é misericordioso. Um Deus que não é lei, mas vida. Um Deus que não exclui, mas vem resgatar o que estava perdido para reinserir na comunidade. Um Deus que, primeiro, se preocupa com a pessoa, para depois inseri-la na comunidade, para em seguida se louvado por essa pessoa e salvá-la.
Depois de cumprir todo o ritual de acolhimento, previsto na lei, Jesus voltou-se para a mulher e disse: “Teus pecados estão perdoados”. Essa frase espanta todos que estão na sala. Só Deus pode perdoar pecados. Mas as pessoas do tempo não viam nele a presença de Deus, só os pecadores e excluídos. Mas, aquela mulher conseguiu ver a presença de Deus naquele homem. Porém, não basta perdoar os pecados. Jesus disse que havia vindo para resgatar os que estavam perdidos. Por isso, ele acrescenta, “tua fé te salvou”. E todo o que está salvo reencontrou a paz. Por isso, “vá em paz”.
Ela saiu daquela sala justificada. Salva. Em paz. Toda a sua agonia, todo o seu desespero estão agora perdoados. E mais do que isso, ela sai dali salva, e todo aquele que se está salvo deve ter a paz. A paz é um dos frutos daquele que encontrou a salvação.
Jesus entrou na casa do fariseu. Mas quem teve o perdão e a salvação foi a “mulher pecadora”. Não basta ser rico. Não basta seguir as regras. Não basta cumprir os preceitos religiosos. Não bastam as práticas piedosas. Tudo isso é necessário, mas é importante reconhecer que é preciso buscar quem está perdido. Acolher o pecador. Perdoar. Dizer, “a tua fé te salvou”.
Lucas apresenta duas conclusões. A primeira, diz que Jesus saiu por cidades e povoados pregando a Boa Nova do Reino de Deus. E esta boa nova estava no episódio narrado anteriormente.
E a segunda conclusão, refere-se às pessoas que andavam com Jesus. Além dos doze, havia as mulheres que colocaram a serviço aquilo que tinham de mais caro. Muitas foram resgatas de seus pecados. Faziam parte da comunidade, mas eram fúteis. O encontro com Jesus às resgatou. E todo/toda aquele(a) que é resgatado(a) por Jesus, imediatamente coloca-se a serviço.
Oremos: “Ó Deus, força daqueles que esperam em vós, sede favorável ao nosso apelo, e como nada podemos em nossa fraqueza, dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme vossa vontade, seguindo os vossos mandamentos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”. Amém!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Mulher!

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 27Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério'. 28Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. 29Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno. 3lFoi dito também: 'Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio'. 32Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério (Mt. 5,27-32).
Nesta perícope, existem dois recortes. O primeiro fala da relação matrimonial. E a segunda, o como pecamos com os olhos e com as mãos, e com a vontade e o querer.
Primeiro a questão do matrimônio. Em especial a situação do divórcio e do adultério. “Ouvistes o que foi dito, não cometerás adultério” (Ex 20,14). Jesus conhecia a vontade de Deus para esse tema. E a tradição de tudo o que havia aprendido na escuta das leituras. Em Levítico se o homem que cometer adultério com a mulher de seu próximo é réu de morte (Lv 20,10). O livro da Sabedoria trata o adultério como uma desordem no casamento (Sab. 14,26). E em Eclesiástico 23,16-26, há toda uma reflexão sobre as relações sexuais, e trata do adultério.
Jesus, conhecedor da tradição religiosa de seu povo; sabedor de como Deus havia determinado como deveriam se dar as relações dentro do matrimônio. Tendo dito que não veio abolir a lei, mas dá-lhe pleno cumprimento, vai além do meramente humano. Torna a relação entre homem e mulher, que culmina no matrimônio, divina. “Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”.
O coração é a sede da vontade. Antes de se consumar um ato contrário à vontade de Deus, o ser humano o concebe dentro de seu coração, no seu íntimo. No oculto de seu coração. Por isso, Jesus afirma que já se adultera no coração ao se imaginar em possuir uma outra mulher que não a própria esposa.
Logo após este frase, ele destaca o olho e a mão. O olho é a porta do desejo. Os olhos veem tudo. O desejo entra pelos olhos. Com os olhos tomamos contato com as pessoas, com os objetos, com as coisas criadas. “Se teu olho te levar a pecar...”. Se teu olho ao ver uma outra mulher, e com isso, a desejar em seu coração, é melhor arrancar e jogar fora. É melhor não ver. É melhor não dar asas a imaginação. É melhor não ser aproximar. Pois todo aquele que asas a imaginação dos olhos, com certeza, vai usar a mão para conceber o mal que lhe foi colocado no coração.
A mão é a ação. Agimos com a mão. Tocamos. Acariciamos. Aproximamos. As mãos são a parte do corpo que faz com que aquilo que os olhos viram, e o coração concebeu, se concretize. É melhor afastar a mão do pecado. Não deixe a mão te levar a perdição. Todo o corpo deve estar a serviço de Deus. Mesmo no matrimônio, a relação sexual está a serviço do Pai.
Eis que o homem deixará pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne. É assim que foi determinado. Formar uma só carne. Um só corpo. Uma só alma. Um só espírito. Unidade. A vida matrimonial deve seguir o modelo da Trindade, unidade. Fazer-se um, homem e mulher.
Assim, fechamos a mensagem de hoje. Não podemos defender o adultério, pois quem adultera rompe com a unidade da Trindade. Não podemos dar vazão aos sentimentos sexuais com pessoa diferente de quem nos unimos por matrimônio. Nem olhar, nem tocar.
A Trindade é perfeita. Nossas relações matrimoniais devem ser perfeitas. A Trindade é um só Deus em três pessoas. No matrimônio formamos uma unidade entre esposa e esposo.
Não cometamos adultério, seja ele carnal ou espiritual. Deixemo-nos tomar pelo espírito divino. Sejamos perfeitos como a Trindade é perfeita.

Assim, ao ouvirmos falar de mulheres que são violentadas, devemos lembrar sempre da ordem de Jesus, “Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”.