domingo, 16 de agosto de 2020

Dispersou os orgulhosos!

Valha-me, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré, intercessora dos ...
Auto da Compadecida - Ariano Suassuna

Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 1,39-56

39 Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com um grande grito,  exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!" 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu". 
46 Maria disse: "A minha alma engrandece o Senhor, 47 e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, 48 pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita. 49 O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! 50 Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam. 51 Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos. 52 Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. 53 De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos. 54 Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor, 55 como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre". 56 Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa. 

Palavra da Salvação.

Reflexão.

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Já escrevi e preguei várias vezes sobre esse texto. Mas, cada vez que eu faço a lectio divina dele, coisas novas vão aparecendo. Maria poderia ter dito a Isabel, "que nada; deixa disso! Você ficou emocionada com a minha chegada". Mas, não! 

Aquelas duas mulheres, mulheres do povo pobre de Israel, aguardavam, como todas e todos, a manifestação de Deus no meio da humanidade. As duas passam pelo milagre de estarem carregando esperanças para o povo. Um que prepararia o caminho; o outro, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Uma estéril, por graça de Deus, gerou o último profeta do Antigo Testamento. E a outra, ainda no início da vida, grávida do próprio Deus ("Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar"?). À Maria, o anjo revelou a gravidez de Isabel. E, à Isabel, o próprio filho revela a presença do Salvador. Dada essa revelação, vejamos.

Maria não se envergonha da saudação de Isabel. Ela, rapidamente,  faz uma oração de engajamento, uma oração de quem espera a encarnação daquele que é a salvação da humanidade.

Os pobres, os oprimidos, os excluídos esperam em Deus. A única coisa que nos resta é essa espera. Essa confiança. 

A primeira revelação que Maria nos faz é reconhecer a sua pequenez, sua insignificância enquanto serva. E que isso, não a fazia menor do que as outras pessoas que ocupavam um lugar de destaque. Ela passa a ser o centro das atenções (pelo menos para os pobres, excluídos, rejeitados). Apesar de sua pequenez, "o poderoso fez, por mim, maravilhas". Deus não escolheu, e não escolhe, os poderosos. Esses oprimem. E a ação de Deus é libertação. Os orgulhosos e os poderosos desprezam os excluídos, os rejeitados, aquelas e aqueles que são considerados sobras na nossa sociedade. Deus confunde (dispersa) os orgulhosos, e derruba dos tronos os poderosos. E coloca acima de toda forma de opressão os humildes. Deus é Deus porque alimenta (sacia) os famintos. Famintos de justiça, de paz, de misericórdia, de comida (pão).

Celebrar a Assunção de Maria, sua elevação aos céus é recordar todos aqueles e aquelas que são desprezados nesse mundo. Todos e todas que estão passando por humilhações, por racismos, por violências imposta pelo estado ou por qualquer outra pessoa. Esse nos precederão no Reino dos Céus (prostitutas e pecadores, pois esses estão abertos a ouvir a palavra de Deus (Mt 21,31)). 

Hoje, ao contemplarmos a Assunção de Maria, mãe de Jesus, lembremos que o Reino se faz e está no meio de nós. Que é preciso mudar as relações sociais. Que é necessário valorizar a vida, e não a necro-política que hoje está instaurada em nossa cidade, estado e país. Só se chega ao Reino dos Céus se soubermos compreender que a porta do Reino está diretamente relacionada com o serviço ao próximo/próxima. Maria foi Assunta ao céu, primeiro porque fora concebida sem pecado. Segundo, porque aceitará a missão de trazer em seu ventre o Filho de Deus. E terceiro, porque assumiu a missão confiada a ela por Deus, e disse, "Faça-se em mim segundo a vossa vontade". O nosso destino é o Reino dos Céus. Mas para chegarmos lá é preciso transformar esse mundo aqui. Amém.

domingo, 9 de agosto de 2020

Assim que subiram no barco, o vento se acalmou

Décimo Nono Domingo do Tempo Comum – Pedro desceu da barca e ...

Primeiro Livro dos Reis 19,9a.11-13a

Ao chegar ao Horeb, o monte de Deus, 9 ao profeta Elias, entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: 11 'Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar'. Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto. 12 Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa. 13a Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta.
Palavra do Senhor.


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 14,22-33

Depois da multiplicação dos pães, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o  avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Nossa reflexão de hoje até poderia somente se ater ao evangelho. Entretanto, fiz a opção de trazer a experiência de Elias em relação a Deus.

Dois homens. Elias e Pedro. Duas histórias, uma no Horebe (monte) e outra no Mar (Galileia). Duas histórias separadas pelo tempo entre si (e distante de nós), mas que falam aos seres humanos de hoje com muita clareza. Muita força. Muita propriedade. Sempre que a Palavra de Deus me toca assim, eu me recordo de Paulo escrevendo para Timóteo e dizendo que a escritura é útil "para ensinar, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra" (II Tm 3,16-17). 

Sendo assim ,vejamos. Elias está fugindo da perseguição da rainha Jezebel. E vai se refugiar na montanha de Deus, o Horeb. Ali, Deus diz que vai passar diante dele, e ele terá que reconhecê-lo. Fogo, Terremoto, Vento Forte. Deus não estava nessas forças. Logo depois, uma brisa suave sopra, e Elias percebe a presença de Deus. Primeira lição, Deus se faz presente na brisa, na suavidade, no silêncio. Ele não se apresenta naquilo que incomoda o ser humano, na agressividade. "Deus é amor". Deus é amável. Ele restaura as nossas forças, como diz o Salmo. Deus se revela no silêncio.

Então, vejamos o evangelho. Olhemos para a figura de Pedro. Veja onde ele se encontra, barco-mar-barco. 
Primeiro, Pedro está na "segurança" do barco, enquanto esse navega pelas águas tranquilas. Até aquele momento, Pedro, homem experiente do mar, se sente seguro e tranquilo. 

Mas, por volta das 3 horas da madrugada, no meio da vigília, esse barco começa a ser atormentado pelo vento e pelas ondas altas e forte impulsionadas pelo vento (lembremos os três elementos da primeira leitura). Os discípulos começam a temer pela própria vida. Ao olharem ao longe, veem um vulto sobre as águas. Ainda não reconhecem Jesus. Pensam ser um fantasma, como se isso existisse. Começam  gritar. Jesus, percebendo o desespero deles diz, "Sou eu" (essa era a expressão utilizada para se falar de Deus). Pedro diz, "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água". É preciso checar a informação. E Jesus diz, "Vem"! Pedro sai da barca.

No mar, andando sobre ele, ainda venta forte, e as ondas são agitadas pelo vento impetuoso. Até aquele momento, não se havia notícias de que um pescador pudesse caminhar sobre as águas, e mais ainda, sobre águas revoltas pelo vento, com ondas fortes. 

Está Pedro sobre as águas. Mas, algo acontece. Pedro toma consciência do que está acontecendo. Fraqueja na fé e na coragem. E começa a afundar. Que cena linda. O pescador começa a virar peixe. Já perceberam isso? O pescador, ao começar a afundar, e ir para o fundo do mar, passa a ser peixe. E grita, "Senhor, salva-me"! E Jesus, que não tinha como ofício ser pescador, pesca Pedro. Resgata o discípulo das intemperes do mar. Das agitações das ondas. Do vento forte.

Os dois, então, voltam para a barca. Terceira parte da trilogia barca-mar-bar. Assim que voltaram à barca, toda a tormenta cessou. E todos reconheceram a filiação divina de Jesus. E Jesus ainda acrescentou que eles eram fracos na fé. 

Lições. Deus não se faz presente nas agitações do dia-a-dia. Deus não é força, apesar de ser poder. Deus se revela aos seres humanos na serenidade, e essa pode estar na montanha. Deus se revela nas agitações da vida, ele nos resgata de tudo que possa nos tirar a paz e a coragem. Deus nos restabelece a fé, mas é preciso ter coragem. É preciso ouvir a sua palavra e a por em prática. É preciso assumir na nossa vida a profecia e a condução do povo.

Deus tudo pode. Quantas vezes, na barca de nossa vida pessoal, de nossa vida eclesial, de nossa vida comunitária, de nossa vida familiar, nos vemos agitado por tantos ventos? Até nos parece ventos fortes que nos desestabilizam. Mas, o evangelho de hoje nos mostra que diante de nós está Jesus, está sua palavra, está sua vida. Se tivermos a coragem de caminhar sobre as nossas agitações, com Jesus, tudo será superado. Às vezes, é necessário passar por essas agitações para renovarmos nossa confiança no Senhor. 

Sempre tenha fé. Tenha Coragem! Confie, por mais que ventos impetuosos e ondas fortes agitem sua vida. Amém.

domingo, 2 de agosto de 2020

Dai-lhes vós mesmos de comer!

Dai-lhes vós de comer – Igreja Anglicana


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 14,13-21

13 Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: 'Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!' 16 Jesus porém lhes disse: 'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!' 17 Os discípulos responderam: 'Só temos aqui cinco pães e dois peixes.' 18 Jesus disse: 'Trazei-os aqui.' 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção.
Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuiram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos,
e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios.
21E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.


Palavra da Salvação.

Reflexão.

Temos diante de nós três textos que nos falam a coração de uma forma peculiar. 

Inicialmente, Isaias mostra uma sociedade igualitária, onde não se mede a vida pelo dinheiro que se tem. Ou, digamos assim, pelo "poder de compra". No Reino, tudo está a nossa disposição. Cada um recebe segundo a sua necessidade. "O pão nosso de cada deia nos dai hoje". O profeta nos lembra que Deus nos alimenta para que possamo ouvir sua palavra, e com isso, termos vida.

Na segunda litura, Paulo nos lembra que nada poderá nos separar do amor de Cristo. Tudo aquilo que humanamente falando, poderia produzir falta de paz, diante de Cristo tudo é passado.

E no evangelho, a frase central é "dai-lhes vos mesmos de comer"! Não é um chamado à caridade. É uma afirmação. É uma ordem. Os discípulos dizem que não será possível alimentar uma multidão com cinco pães, e dois peixes. Mas, eles esqueceram que, além disso, Jesus estava ali. 

Existem muitos elementos nessa texto que nos servem de matéria para nossa reflexão. Vejamos. Se somarmos 5 com 2, teremos 7. Sete sacramentos. Sete virtudes opostas aos sete pecados capitais. Sete obras de misericórdia espiritual e sete obras de misericórdia corporal. Se somarmos as virtudes teologais com as virtudes cardeais teremos sete. Interessante como o número sete nos acompanha em nossa vida espiritual. Sete foram os número dos primeiros diáconos. Sétimo é o dia do descanso de Deus após a criação. 

Então, diante dos cinco pães e dos dois peixes, temos Jesus, a perfeição. Ele toma esse alimento, dá graças, e os parte, distribuindo para os discípulos que lhes entregam à  multidão ali presente. 

O texto diz que todos comeram e ficaram satisfeitos. Vejam, cada um recebe uma parte do pão. O pão é repartido entre todos, homens, mulheres e crianças. E ainda, se tem sobras. Que são recolhidas em 12 cestos. Cada discípulo ficou responsável por alimentar, mais adiante, cada uma daquelas pessoas. 

O que podemos tirar de proveito hoje? Jesus não é posse de nenhum grupo religioso. Jesus se reparte, mas se dá por inteiro. E os discípulos somos chamados a levar a palavra de Jesus a todas e a todos. Alimentar cada uma daquelas pessoas que foram ao seu encontro buscando conforto, e orientação.

Não devemos despedir as pessoas sem que sejam alimentadas. Sem que sejam ouvidas e atendidas em suas necessidades. 

A oração eucarística rezada hoje, no Rio de Janeiro, diz, "Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que, a exemplo de Cristo e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo". T: Ajudai-nos a criar um mundo novo!

Criai um mundo novo, onde não haja mais fome.

domingo, 26 de julho de 2020

Compreendestes tudo isso?



É PRECISO CAMINHAR


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 13,44-52

Disse Jesus à multidão: 44 'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.

45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.

47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E ai, haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?' Eles responderam: 'Sim.' 52 Então Jesus acrescentou: 'Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.'

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Nosso texto de hoje demorou a ser escrito. Estamos o capítulo 13 de Mateus, o chamado Sermão do Reino, onde Jesus nos mostra, por parábolas, como é o Reino dos Céus.

"O Reino dos Céus é como...". No domingo passado, 16º do tempo comum, Jesus comparava o Reino dos Céus a um campo onde era semeado trigo e o demônio infiltrou o joio. Além de usar a linguagem do fermento, e do grão de mostarda.

Hoje, vemos as mesmas comparações de um forma diferente. Somente a da rede lançada ao mar se assemelha ao trigo e joio.

Ouviremos muitos falarem do valor do reino dos Céus. Mas esse é um valor diferente, pois é preciso desfazer-se dos próprios bens para adquirir o Reino dos Céus. Apesar dele não pode ser comprado com nossas riquezas humanas. O Reino dos Céus é justiça. E para Deus, justiça é doação, é partilha, é superação do egoísmo, dos racismos, das homofobias. Justiça é não seguir governos que produzem mortes e perseguições. É respeitar a natureza, nossa Casa Comum.
Jesus aponta para uma nova relação social, onde não haja ricos, nem pobres. Onde não haja pessoas com fome e sede, sem vestimenta, doentes sem tratamento, encarceradas injustamente. Onde não haja refugiados. Ou perseguidos.

Em seguida, ele compara o Reino dos Céus a o simples ato de pescar. De lançar a rede. De ir ao mar. Aqui, o mar é o mundo. E no mundo existem muitos tipos de pessoas, boas e injustas. E quando o pescador chega à praia, ele separa os peixes bons, e os coloca nos cestos; e os peixes que não prestam são jogados fora.
Assim ele fala da humanidade. Assim somos nós. Aqueles que são bons, e aqui aparece um detalhe, bom não são só os cristãos, só os católicos; bons são todas aqueles assumem em sua vida a solidariedade com os pobres, com os excluídos, com as pessoas mortas nas favelas, pelos perseguidos por causa da busca justiça. Os bons serão recolhidos nos cestos. Serão colocados à parte. Pois deram o fruto necessário.
Os que são maus, são injustos. Não defendem a vida. Tramam o tempo todo pela morte dos pobres, dos negros e negras, dos indígenas, destroem o meio ambiente, maltratam crianças, mulheres, jovens, adolescentes. Pela corrupção, causam destruição do ensino público, são contra as pesquisas, tramam o fim dos hospitais públicos, roubam dinheiro público, falam mentiras, enganam. Esse serão jogados na fornalha, no fogo eterno. Não pertencem ao reino, apesar de estarem juntos na mesma rede. 

Temos hoje um alerta muito importante para aqueles que estão nos templos religiosos, que buscam a divindade, não basta estar na rede, é preciso ser peixe bom. É preciso ter atitudes de solidariedade, de amor ao próximo, de misericórdia, não importa a quem. Missas e cultos são importantes. Práticas devocionais são importantes. Grupos de Oração são importantes. Sacramentos são importantíssimos. Tudo isso só tem sentido se me leva ao encontro do outro. Se me faz uma pessoa melhor, sem julgamentos, sem doutrinas que condenam. 

Se Maria, a mãe de Jesus foi o que foi, e aceitou a ser a mãe do salvador, ela aprendeu com seus pais. Hoje lembramos os avós de Jesus, lembremos de todas e todos aqueles que nos precederam na fé, e que souberam nos ensinar a justiça que liberta, que leva ao encontro do outro, que nos aponta para Jesus. Amém.

domingo, 19 de julho de 2020

O Reino dos Céus é como...

Minério e Prosa: |”Um grão de mostarda” por Nádio Batista | Blog ...Fermento na Bíblia: Por que era visto de forma tão negativa?Deixai que o joio e o trigo cresçam juntos” - Instituto Humanitas ...


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 13,24-43

24 Jesus contou outra parábola à multidão: 'O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26 Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27 Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: `Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?' 28 O dono respondeu: `Foi algum inimigo que fez isso'. Os empregados lhe perguntaram: `Queres que vamos arrancar o joio?' 29 O dono respondeu: Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30 Deixai crescer um e outro até a colheita!E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!''

31 Jesus contou-lhes outra  parábola: 'O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos.'

33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: 'O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.'

34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo'.

36 Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: 'Explica-nos a parábola do joio!' 37 Jesus respondeu: Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.'

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Jesus nos conta três parábolas sobre o Reino. Duas delas, nos parecem ser mais fáceis de compreender. A primeira, da semente de mostarda. As pessoas vivem perguntado sobre esse tipo de semente. Sugiro que vá à internet e faça essa pesquisa. Basta uma pequena semente dessa hortaliça para que haja um grande arbusto. 
Em seguida, ele fala do fermento. É a pequena parte, a pequena porção para que tanto o pão, quanto o bolo possam crescer, e alimentar muitas pessoas. Então, o Reino não precisa de muitas palavras, de muito alvoroço. Basta uma pessoa, por menor que seja, vivendo as bem aventuranças, para fazer o Reino germinar no meio da humanidade.

Voltamos para a parábola principal. Se observarmos bem, veremos que depois da parábola do Semeador, a parábola do Joio e do Trigo é a segunda parábola que Jesus explica para seus discípulos. Não haveria necessidade de explicar essa parábola, pois o próprio Jesus já o fez. 

Entretanto, no fim da parábola Jesus diz, "o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal". Nesse ponto é importante falarmos sobre o "praticar o mal" e o fazer os "outros pecar".

Em nosso catecismo, aprendemos que "o pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens". E ainda, "fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana" (grifos meus). Santo Agostinho definiu o pecado como "uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna".

Aqui observamos que o pecado não é apenas um ato pessoal. Ao pecar, nosso pecado tem uma dimensão social, pois implica em uma queda do outro. Fazemos menção ao Pai Nosso, "perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido". Não basta pedir o perdão individualmente. Esse perdão tem implicações sociais. Por isso, sempre é bom pensar, esse meu pecado feriu em que o meu irmão? Toda a nossa listinha de pecados terá como consequência o ferir alguém. O afastar alguém do Reino dos Céus. O não ser fiel à missão confiada a nós por Jesus, não importa o nosso grau de inserção na comunidade, pois "a quem muito foi dado, muito será cobrado". 

E depois, Jesus fala de "praticar o mal". Em sã consciência as pessoas religiosas fogem da prática do mal. Mas, sempre vemos atitudes de maldade nas falas, nos gestos, nas ações. Até São Paulo passou por isso, "Ora, se faço aquilo que não quero, não sou eu que o faço, mas é o pecado que mora em mim" (Rm 7,20). E quando é que praticamos o mal? Todas as vezes que temos atitudes ou falas racistas. Todas as vezes que não sentimos a dor das mulheres que são agredidas de todas as formas possíveis; todas as vezes que acusamos as irmãs e irmãos que fizeram uma opção sexual diferente da nossa; todas as vezes que apoiamos governos, ou candidatos que tem como plataforma política o extermínio de populações pobres, negras, faveladas. Todas as vezes em que não nos indignamos com ações violentas praticadas pelo estado através dos seus agentes de segurança. Todas as vezes em que vemos o Meio Ambiente ser destruído e não nos pronunciamos em contrário. Todas as vezes em que achamos que a fé é algo intimista e individual, e que não tem consequências sociais.

Jesus hoje nos alerta para que vejamos nossas práticas, nossas ações, nossas palavras. Tomemos cuidado para não sermos o joio no meio do trigo.

Rezemos: "Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que, repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

domingo, 12 de julho de 2020

Quem tem ouvidos, ouça!

Quem Tem Ouvidos Ouça” | CFNEWS

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 13,1-9


1 Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. 2 Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. 3 E disse-lhes muitas coisas em parábolas: 'O semeador saiu para semear. 4 Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5 Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6 Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7 Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8 Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. 9 Quem tem ouvidos, ouça!'

Palavra da Salvação.

Reflexão

Estamos diante de uma das leituras mais conhecidas, o Semeador.
Nesse caso, o semeador sai a lançar a semente, independentemente da terra.
Existem vários terrenos a serem semeados. E o semeador insiste em jogar a semente. Cada terra recebe a semente de um jeito.
Cada um de nós recebemos a palavra de Deus (semente) de acordo com o estado de nosso coração e da nossa vida. Se estamos bem, a palavra nos ajuda a vermos o mundo por uma ótica de alegria, de euforia, de otimismo, de consolação. Se estamos mal, a palavra de Deus nos impele a uma reflexão sobre a fé, sobre a esperança e sobre a caridade.
A passagem de hoje nos recorda duas situações distintas, mas complementares. A primeira está na segunda carta de São Paulo a Timóteo, capítulo 3,16-17, e diz "toda escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim, a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra". Essa é a terra que germinou cem por cento.
A segunda, está nos Exercício Espirituais de Santo Inácio de Loyola, e trata da Consolação e Desolação espiritual. Ao tratar da desolação Inácio fala de possíveis causas deste estado da alma. Dentre elas, destaco, não sermos constantes em nossas práticas espirituais, ou seja, oração diária e lectio divina. Assim, passamos a ser aquele terreno que recebe a semente (palavra) mas não dá frutos.
Já na consolação espiritual temos o reforço da fé, da esperança, da confiança em Deus. Terreno fértil.
Olhamos para o texto de hoje com aquele sentimento de que terreno somos nós. Frequentamos templos, rezamos, fazemos lectio divina, mas, às vezes, nos sentimos tristes, sem esperança, cansados, sem rumo. Mas, se deixamo-nos ser cuidados pela palavra de Deus, daremos o fruto necessário. E quais são esses frutos? Na carta aos Gálatas, capítulo 5,22-23, Paulo enumera-os: "amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si". Acrescento a esses, novos frutos para os nossos dias. Ser contra toda forma de racismo, de discriminação; ser contra toda forma de violência contra as mulheres, crianças, idosos, indígenas; ser contra a destruição do meio ambiente. Ser contra toda e qualquer forma de destruição da vida.
É por isso, que quem tiver "ouvidos, ouça". Amém.

domingo, 5 de julho de 2020

Meu jugo é suave e o meu fardo é leve

O Jugo Suave e o Fardo Leve

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 11,25-30



Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: 25 'Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Palavra da Salvação.

Reflexão.

Antes de iniciarmos nossa reflexão de hoje, vou apresentar uma característica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, a chamada "Repetição". Isso porque, nosso texto de hoje já apareceu em nossa liturgia.

"A repetição é um elemento capital da pedagogia dos Exercícios, pois permite, pouco a pouco, discernir os espíritos: com liberdade e desembaraço, voltamos ao momentos em que Deus, pelo gosto espiritual, começou a indicar-nos sua vontade, mas também aos momentos de secura, tentação,  repulsa que talvez nos tenha impedido de encontrá-lo". (Exercício Espirituais de Santos Inácio de Loyola, Edições Loyola. 1985. Nota de rodapé 49, página 52).

Já o padre Futrell, sj, afirma que "as repetições são de grande importância para o Exercício Espiritual e não resultam redundantes, como se poderia desconfiar". E acrescenta que é um momento, onde, "em clima de oração", se deve repassar "as consolações, desolações e luzes espirituais" dos exercícios anteriores (cf. Como dar um retiro inaciano - manual para diretores. Edições Loyola. 1987. pág. 60).

"A repetição consiste consiste em uma retomada, em um aprofundamento, que permite que o fruto espiritual amadureça" (cf. Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, Edições Loyola. 1994. pág. 49).

 Sendo assim, a repetição tem um caráter espiritual pedagógico. Não é um tapa buraco.

Tendo esse preâmbulo, voltemos ao nosso texto. Como eu disse inicialmente, esse texto já apareceu em nossa liturgia. Agora, vamos vê-lo sob outro aspecto.

Façamos uma divisão didática para melhor compreensão. Primeiro, nos versículos 25 e 26 temos uma oração pessoas de Jesus. Em nossos tempos, chamamos essa oração de Oração de Louvor. Jesus exalta Deus-Pai por ter dado aos pequeninos o entendimento das coisas do Reino dos Céus e escondido isso dos sábios e entendidos.

Leonardo Boff tem uma frase onde diz, "todo ponto de vista, é a vista de um ponto". E ainda mais, "cada um lê com os olhos que tem. E interpreta de onde os pés pisam". Jesus está no meio dos pobres. Convive com pobres. Mora com os pobres. Olha o mundo do jeito que os pobres olham. Só para termos um exemplo prático, Pe. Júlio Lancelotti olha o mundo com o olhar dos que moram nas ruas. E ilumina essa leitura com a palavra de Deus. Jesus não está no meio dos mestres da lei. Não mora em Jerusalém. Não está no templo como rabino.

Em seguida, Jesus fala Dele e do Pai. Pai e Filho formam uma unidade. Um conhece o outro. E o Pai só pode ser revelado pelo Filho. Pois o Filho convive com o Pai.

Logo depois, vendo a realidade do povo, as leis impostas sobre eles, sejam elas civis ou religiosas, percebe o peso de se viver isso. Ele, então, diz que seu fardo é leve, e seu jugo é suave. Lembremos que o jugo era o instrumento colocado nas costas do jumento para fazer o transporte dos jarros. Aquilo pesava. Jesus alerta que os entendidos e sábios costumam criar leis pesadas que o povo não consegue suportar. Por isso, são como ovelhas sem pastor.

Ele se apresenta como manso e humilde de coração. Lembremos as Bem Aventuranças. "Bem aventurados os mansos, porque receberão a terra em herança". E mais, "Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus". Aqui os "puros de coração" são os humildes.

Aproveitemos o dia hoje. Vejamos quais são as cargas pesadas que estamos levando. Como podemos nos desfazer de nossos fardos, de nossos jugos. O que devo fazer para ser manso e humilde de coração? Amém.